Deixar que lixões proliferem é irresponsabilidade e caso de saúde pública

Professor Resíduo
02:00:PM - 03/Apr/2017
Deixar que lixões proliferem é irresponsabilidade e caso de saúde pública

03/04/2017 | 14h00

O Brasil gastou R$ 1,5 bilhão em 2015 para tratar pessoas com doenças relacionadas à gestão inadequada de resíduos


A dramática crise fiscal que atinge o país estende seus efeitos a todos os serviços públicos prestados à população. São exemplos disso escolas em péssimo estado de conservação, universidades funcionando precariamente — ou fechadas — e hospitais sem a menor condição de dar atendimento adequado. Governos irresponsáveis no gasto público e sem coragem para enfrentar as corporações que veem o Orçamento como uma entidade abstrata — descolada da aritmética elementar que anuncia a falência iminente pela despesa maior que a arrecadação — não tem mesmo a mínima capacidade de cumprir suas obrigações com os cidadãos que o sustentam.

Mais grave ainda é quando a crise produz mais crise. É o caso da negligência de prefeituras do Estado do Rio que, sob a alegação de falta de dinheiro, pararam de avançar no projeto de acabar com lixões e substituí-los por aterros sanitários, o que já deveria ter sido feito em todo o país até 2014, como determina a Política Nacional de Resíduos Sólidos. O número de lixões no estado aumentou de 17 para 29, de 2015 para cá — o que causa impacto na saúde pública e aumenta a demanda em hospitais e postos de saúde, que já funcionam além da capacidade. Segundo a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), a produção diária de detritos em território fluminense é de 22 mil toneladas, sendo que sete mil vão para vazadouros a céu aberto.

O Brasil gastou R$ 1,5 bilhão em 2015 apenas para tratar pessoas com doenças relacionadas à gestão inadequada de resíduos, de acordo com a Abrelpe. E o dano ambiental é incalculável. Sem o devido tratamento, a decomposição dos resíduos contamina o solo e os lençóis subterrâneos de água. Há vazamento de chorume e produção de gases poluentes, facilitando a reprodução de insetos transmissores de doenças.

Nessas circunstâncias, projetos de despoluição de rios e do mar tendem a ficar mais onerosos — ou inviáveis. Ou seja, deixar de investir nos aterros sanitários é um corte de gastos ilusório, porque mais tarde a conta chega para a administração pública, e a população é punida.

Usar a desculpa da queda na arrecadação para lavar as mãos diante de questão tão grave é mais uma prova da falta de compromisso do administrador e político com a coisa pública. Até porque, a operação eficiente dos aterros sanitários reduz os custos. A coleta seletiva e a reciclagem — por suposto uma prioridade na gestão de resíduos sólidos — podem produzir material a ser vendido, o que ajudaria a diminuir o gasto dos municípios e, num momento em que o desemprego bate recordes, gerar renda para catadores. Mas o pressuposto disso é uma gestão eficiente e responsável, um artigo raro no país.