Regeneração em áreas abandonadas de mata atlântica anima pesquisadores

Professor Resíduo
04:00:PM - 29/May/2017
Regeneração em áreas abandonadas de mata atlântica anima pesquisadores
Foto de maio de 2017 da mesma área que foi atingida por tempestade; já se nota a recuperação da mata

29/05/2017 | 16h00

Depois de séculos de destruição, a regeneração da mata atlântica em alguns locais do país começa a animar os pesquisadores da área.

Essa visão positiva de cientistas se dá mesmo que a recomposição florestal ocorra em áreas pequenas e fora de Minas Gerais e Bahia, onde o desmatamento prevalece.

De acordo com o mapeamento da rede Global Forest Watch, que enxerga áreas com boa precisão, a mata atlântica voltou a crescer em 489.816 hectares entre 2000 e 2014. Os 12% de mata que restam no Brasil cobrem 16,3 milhões de hectares.

"Estamos conseguindo reverter o processo histórico de predomínio de desmatamentos para iniciar uma era de predomínio da regeneração", afirma Pedro Brancalion, pesquisador do Laboratório de Silvicultura Tropical da USP, em Piracicaba (SP).

O próprio campus uspiano do interior paulista é um exemplo de regeneração, segundo Brancalion. "Por meio do trabalho de alunos da graduação, a cobertura florestal do local duplicou".

Apesar de todo o desenvolvimento científico das últimas décadas, que gerou receitas de como recompor a floresta atlântica, a maior parte das áreas regeneradas surgiu pela total ausência da intervenção humana.

"A recuperação florestal tem ocorrido principalmente em áreas de menor aptidão agrícola que são abandonadas", afirma o pesquisador.

Tanto o êxodo do campo para as zonas urbanas como o abandono de cultivos em áreas muito íngremes, onde as máquinas não conseguem operar, estão abrindo espaço para a mata.

Um dos problemas das áreas abandonadas pelos proprietários rurais, segundo o pesquisador Ricardo Ribeiro Rodrigues, também da USP, é que, por simples inércia, a mata volta a crescer, mas não com qualidade.

"A paisagem, muitas vezes, não permite a chegada de novas espécies porque são poucos fragmentos", diz Rodrigues. Nestes casos, os locais precisam ser monitorados e enriquecidos com outras espécies, uma receita que muitas vezes custa caro.

Há exemplos, segundo ele, a demonstrar que o caminho da regeneração passou a ser viável dos pontos de vista econômico e ecológico.

Para o dono da terra, o ganho com a regeneração pode compensar o prejuízo registrado pelo abandono das áreas para agricultura.

Em tempos de escassez hídrica, ter a mata atlântica ao redor dos mananciais é uma solução para evitar que falte água nas torneiras.

Brancalion, aliás, tem sugestões sobre isso. Fortalecer a proteção do que sobrou é uma delas. "Muitas de nossas reservas são abandonadas", comenta.

A segunda é a recuperação da floresta em áreas vitais tanto para o homem como para a natureza. "O produtor precisa ser bem remunerado pela proteção florestal ou por produtos extraídos dela", diz.

Mas será que nas áreas regeneradas em que a flora voltou, a vida animal está presente com qualidade? "Existem florestas há mais tempo regeneradas, como a da Tijuca, no Rio, onde os anfíbios vivem bem", diz Célio Haddad, cientista da Unesp.