Especial Dia Mundial do Meio Ambiente: o bom exemplo da Pinheira, em Palhoça

Professor Resíduo
11:30:AM - 05/Jun/2017
Especial Dia Mundial do Meio Ambiente: o bom exemplo da Pinheira, em Palhoça
Foto: Marco Favero / Agencia RBS

Barracas, plásticos e até colchão são abandonados no Vale da Utopia

05/06/2017 | 11h30

Por Diário Catarinense

Vilmar Godinho, de 54 anos, ficou conhecido em Santa Catarina por sua curiosa história. Ele mora em uma caverna, nas matas do Parque Estadual Serra do Tabuleiro. Sua permanência no local, em uma briga com a Justiça, tomou relevância no ano passado e seu estilo de encarar o mundo chamou atenção daqueles que não conseguem viver longe da "selva de pedra". Mal sabem estas pessoas que Vilmar não é só um morador da natureza: ele é um guardião das belezas do chamado Vale da Utopia. Não somente ele, mas um grupo de ativistas e voluntários de Palhoça lutam diariamente para fazer a diferença nesta área do parque ecológico. E eles são exemplos para o Dia Mundial do Meio Ambiente, comemorado neste 5 de junho.

O Vale da Utopia, pertencente ao Parque Serra do Tabuleiro, tem aproximadamente 30 hectares e está situado nas proximidades da Pinheira, entre a praia do Maço e a de Cima — região onde ocorre o arrasto artesanal de tainhas. No topo dessa montanha, é possível apreciar um dos cenários mais deslumbrantes da Grande Florianópolis. Por esta mesma razão o espaço é cobiçado por aventureiros e campistas, que montam barracas e acendem fogueiras. O problema é que muitos vão embora dali deixando todo um rastro de sujeira e descaso para trás, esquecendo-se que se trata de uma área de preservação ambiental, onde é proibido causar qualquer tipo de dano à natureza.

Em uma caminhada de cerca de uma hora montanha acima, foi possível encontrar os tipos mais diversos de lixo: restos de lona e barracas abandonadas, garrafas plásticas, chinelos e roupas, bolas, brinquedos, papel e muito vidro _ até embalagem de azeite de oliva encontramos na última sexta-feira em um dos sacos de lixos que já haviam sido recolhidos pelo "homem da caverna", Vilmar. Sem contar a imensa quantidade de garrafas de cerveja. 

Em sua passagem diária até sua morada, Vilmar vai recolhendo o lixo deixado pelos forasteiros. Já reuniu dezenas de sacos com todo o material e entulho que encontrou este ano. E afirma que há muito mais no meio da mata fechada.

O Vale é um lugar muito bonito. Não haveria problema com acampamentos se as pessoas viessem para cuidar da natureza e recolhessem o seu lixo ao ir embora — analisou Vilmar.

Desde o mês passado, Vilmar e ativistas locais, como a colega Karuna Caroline, 58, da rádio comunitária da Pinheira, e da Associação Pró-Crep (Criar, Reciclar, Educar e Preservar), tentam marcar um mutirão de limpeza para recolher toda a montoeira de lixo, mas o tempo, aos domingos, não tem colaborado. A última tentativa deveria ter ocorrido ontem, mas mais uma vez, o evento precisou ser cancelado por conta dos raios e chuva. 

Uma nova data ainda não foi marcada, porque a previsão do tempo continua pouco convidativa para junho. Mas quem quiser acompanhar as novidades e participar do mutirão, é possível acessar a página do evento no Facebook. Acesse em clic.sc/mutiraovaledautopia.

Estamos ficando muito preocupados, porque há muito lixo acumulado no Vale e com a chuva ficará ainda mais difícil recolher depois. Mas vai sair. Precisa sair. Precisamos limpar o Vale — disse Karuna, uma francesa que mora há oito anos na Pinheira. 

O que acontecerá
A ideia do mutirão é que toda pessoa que queira fazer a diferença, seja ela moradora da Palhoça, de Floripa ou de qualquer outra cidade da região, participe subindo a montanha para recolher o lixo deixado. A Pró-Crep irá fornecer sacos de ração para animais, que serão reaproveitados como sacos de lixo. Quem quiser embarcar na aventura sustentável deve se preparar com tênis para caminhada íngreme, que poderá ter lama no meio do caminho. O ideal é levar uma luvinha também, se possível. Mas vai pela gente: a sensação de ajudar e o cenário que te espera lá em cima valem qualquer esforço físico.

Todo o material recolhido será levado para a Pró-Crep, que faz um trabalho lindo na Pinheira de reciclagem. O lixo comum será levado para um aterro especializado, e todo o material reciclável — assim como tudo que entra na Pró-Crep — será reutilizado de alguma forma.

Com o mutirão, os ativistas da região esperam conscientizar as pessoas do dano que é largar lixo pelo Vale da Utopia. Há animais como vacas e cavalos que pastam livremente pela região do parque e que podem se machucar com estes materiais abandonados. E mais: conscientizar os voluntários a dar um destino correto ao material, a exemplo da atividade realizada e defendida pelos voluntários e trabalhadores da Pró-Crep.
Mudança de vida através da reciclagem 

O mutirão, o cuidado e a preocupação com meio ambiente no Vale da Utopia e em toda Palhoça nasceu com a idealização da Pró-Crep na Pinheira. A associação — uma referência em reciclagem e sustentabilidade para o estado inteiro — partiu da ideia de uma professora da rede fundamental de ensino da cidade, Hélia Alice dos Santos, que implantou um sistema de reciclagem no início dos anos 1990 em uma escola da Guarda do Embaú.

O projeto ganhou identidade e força quando a professora foi premiada nacionalmente pela iniciativa. Em 1999, a Pró-Crep ganhou um galpão para expandir seus trabalhos de reciclagem e, desde então, cria soluções para reciclar todos os materiais que chegam ali. Foram criadas usinas de mosaico, de biodiesel e até um brechó com roupas doadas.

A associação recebe todos os resíduos de Palhoça e de outras cidades da região. Somente em abril (maio ainda não conferido), foram reciclados mais de 33 toneladas de material. O local conta com o trabalho de cerca de dez voluntários e 30 trabalhadores, em sua maioria dependentes químicos.

Temos uma parceria com uma associação de dependentes químicos e o trabalho funciona como laborterapia. Eles ainda possuem uma renda com o trabalho, que parte utilizam para pagar se tratamento — explicou Hélia.

Outros trabalhadores, como casal Moisés Antunes, 46, e Marisa Bel de Souza, 35, encontraram uma razão melhor para viver, garantir renda, e melhorar a qualidade de vida. Há nove anos eles atuam na Pró-Crep, sendo que quatro se dedicam exclusivamente para a reciclagem do óleo e sua transformação em biodiesel. Este, um projeto em parceria com a Unisul.

Eu aprendi muito na associação. Penso totalmente diferente. Não somente na questão ambiental, mas na forma de tratar as coisas e as pessoas. Eu era uma pessoa ruim, eu confesso. Hoje, aqui, sou até um homem melhor para a minha esposa — revelou.

O mais incrível da Pró-Crep é ver a mudança na vida das pessoas. É por isso que não desistimos — complementou a mestre em educação, Hélia.