Recife: em entrevista, empreendedor social fala de como é possível lucrar com o próprio lixo

Professor Resíduo
03:30:PM - 11/Aug/2017
Recife: em entrevista, empreendedor social fala de como é possível lucrar com o próprio lixo
Mônica Imbuzeiro / Agência O Globo

"Quando você não recicla, acaba pagando para que o sistema de coleta da prefeitura enterre aquele lixo num aterro sanitário", diz empreendedor social

11/08/2017 | 15h30

Pernambucano, desenvolveu um projeto de reciclagem e veio ao Rio para participar do Labora, o laboratório de inovação social do Oi Futuro

“Tenho 34 anos e sou formado em História. Em 2009, durante uma viagem à Alemanha, vi uma máquina de logística reversa e percebi naquela tecnologia a chance de mudar uma realidade no Brasil. A gente gosta de dizer que na Europa todos são civilizados e não sujam o chão, e não vemos que essa mudança deve partir de nós.”

Não é a consciência ambiental que move a reciclagem no Brasil. Hoje, os protagonistas desse processo são catadores de lixo, pessoas mais pobres, que dependem do dinheiro da venda de resíduos para sobreviver. É preciso engajar mais pessoas para que a logística reversa se torne uma realidade compatível com a cultura brasileira.

Qual é o atual panorama da reciclagem no Brasil?
Nosso país tem números preocupantes. São Paulo, a maior cidade da América do Sul, recicla apenas 3% de todo o lixo produzido. Em Recife, o índice é ainda pior: 1,6%. Na Europa, a média dos sistemas oficiais de reciclagem é de 37%.

Qual é o valor do lixo?
O lixo de um pode ser a riqueza do outro. Prova disso é que algumas cidades na Suécia têm importado lixo, tanto para recolocação dos resíduos na indústria quanto para geração de energia em usinas de incineração. Na Alemanha, as empresas já estampam na embalagem o valor da logística reversa. As garrafas pet de 500ml, por exemplo, informam no rótulo que o consumidor vai receber 25 centavos de euro caso devolva o recipiente vazio em uma máquina de reciclagem.

Como são essas máquinas?
Elas coletam embalagens com código de barras e creditam um valor ao usuário que está fazendo a reciclagem. Além disso, são capazes de identificar o material, apontando se é plástico ou alumínio, qual o volume e até qual a marca. É gerado um grande banco de dados com o caminho percorrido pelos resíduos.

Como esses dados podem ser úteis para a sociedade?
Esses dados podem, por exemplo, traçar um perfil de consumo. Fabricantes de bebidas podem saber como está a saída de determinado produto em uma microrregião. Também podem ser um auxílio para as empresas cumprirem a legislação, uma vez que traçam o caminho dos resíduos.

Quantos equipamentos desses já existem no Brasil?
Demos início ao projeto Recicletool, em 2009, para adaptar essas máquinas à realidade brasileira. Hoje, são 12 máquinas instaladas no sistema de metrô de Recife. Já há menos lixo nas estações. O comportamento das pessoas muda quando elas percebem que é possível lucrar com o seu próprio lixo. Tem gente que já recebeu R$ 35 em dois meses. Não é muito, mas esse dinheiro era jogado no lixo.

Há planos de expansão?
Pretendemos trazer pelo menos dez máquinas para o Rio nos próximos meses. O Rio dá exemplo em termos de lei, por solicitar aos moradores que não sujem as ruas. A máquina de reciclagem pode agregar de forma positiva, dando um incentivo em dinheiro para quem reciclar.

Você defende que há um ganho duplo com a reciclagem. Como se dá isso?
Quando você não recicla, acaba pagando para que o sistema de coleta da prefeitura enterre aquele lixo num aterro sanitário. Esse custo está embutido no IPTU e, além disso, acaba sendo uma agressão ao meio ambiente. Assim, a sociedade perde duas vezes. Essa equação precisa ser invertida.

Qual é o resíduo mais valioso para a indústria?
O resíduo mais bem pago é o alumínio. Em Recife, o quilo vale R$ 3,45. O pet vale R$ 1,10 o quilo. O tetrapak, das embalagens de leite longa vida, é vendido a R$ 0,50 por quilo.

Informações: O Globo