Belo Horizonte preserva ilhas de mata atlântica em meio ao ambiente urbano

Professor Resíduo
10:00:AM - 05/Mar/2018
Belo Horizonte preserva ilhas de mata atlântica em meio ao ambiente urbano
(foto: Edésio Ferreira/EM/D.A PRESS)

Porção de mata cercada de cidade por todos os lados, a Estação Ecológica da UFMG abriga um dos mais importantes remanescentes da vegetação na capital

05/03/2018| 10h00

Apesar do avanço do asfalto e do concreto, a cidade ainda mantém valiosas reservas do mais diversificado e ameaçado tipo de vegetação brasileiro, mas pressões continuam sobre o bioma

Os tons escuros do concreto e do asfalto dominam boa parte de Belo Horizonte, cidade de 2,5 milhões de habitantes onde até os córregos foram encaixotados em dutos subterrâneos. Mas, nesse cenário de urbanização praticamente implacável, a capital mineira ainda reserva refúgios verdes que conservam a mais diversificada e ameaçada vegetação brasileira, a mata atlântica. Nas bordas da Serra do Curral, ao longo do Anel Rodoviário ou nos limites ao norte da metrópole, remanescentes dessa floresta tropical ainda resistem ao esgoto, lixo e depredação, bem como à pressão imobiliária em sua ânsia por mais espaços para construções.

De acordo com o Atlas da Mata Atlântica, um estudo feito por especialistas da ONG SOS Mata Atlântica e técnicos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), com base nos satélites usados nacionalmente, há ainda 901 hectares da formação vegetal ameaçada em BH. Uma área equivalente a 48 campos de futebol. Pode parecer muito, mas o mesmo estudo mostra que isso representa apenas 2,72% da selva que um dia cobriu montanhas e vales belo-horizontinos.

A maior área contínua de mata fica justamente sob as franjas da Serra do Curral, entre o Parque Municipal das Mangabeiras e o Parque Estadual da Serra do Rola-Moça, na porção Sul do município. É dessas florestas contidas em vales íngremes que brotam, na unidade de conservação estadual, uma série de nascentes responsáveis pela formação do Ribeirão Arrudas, o manancial que cruza a capital mineira e deságua no Rio das Velhas depois de ter recebido a maior parte do esgoto produzido na capital.

Contudo, no Parque das Mangabeiras essa diversidade se encontra temporariamente fora do alcance da população, devido aos encontros recentes de macacos mortos, alguns deles contaminados pelo vírus da febre amarela. Nos 337 hectares há 59 nascentes e se abrigam 30 espécies de mamíferos, como micos, esquilos e quatis, e 64 espécies de aves.

RESERVAS
Ao longo do Anel Rodoviário de BH há ainda muitos fragmentos de mata atlântica cruzando a cidade. Na altura do Bairro Olhos D’Água, no Barreiro, há 51 hectares coexistindo com o tráfego intenso e a expansão urbana, dos dois lados da via. No lado da pista que sobe na direção da BR-356, o avanço de habitações no fundo do vale aos poucos comprime a mata e expulsa espécies que se refugiam no local.

Do outro lado, a formação fica mais preservada dentro da Área de Proteção Ambiental do Cercadinho, que é administrada pela Copasa e tem seus acessos controlados pela companhia de saneamento. Mais adiante, no Bairro Bonsucesso, ao longo do córrego de mesmo nome, ainda há 17 hectares de floresta. Está entre os fragmentos mais ameaçados, devido a invasões que ocorrem no local, cujos moradores usam madeira e depositam lixo e ainda mais esgoto no espaço que restou de vegetação.

Do outro extremo da cidade, já na Pampulha, um importante remanescente da mata atlântica abriga diversas espécies de aves consideradas raras em BH. A vegetação densa cobre mais de 80% do Parque Municipal Ursulina Andrade de Melo, no Bairro Castelo. Várias nascentes se intercalam com lagos, formando um belo paisagismo e uma intrincada rede de trilhas.

Quem passeia por lá pode encontrar jacus, inhambus, garças-brancas, urubus, topitis, micos-estrela e gambás. Mas, se der sorte, pode ser um dos poucos a testemunhar o raro voo da coruja-preta, que em 2007 teve seu pio gravado por uma equipe da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O animal, de nome científico Strix hululua, só tinha sido registrado Grande BH 170 anos antes, pelo naturalista e explorador dinamarquês Peter Lund.

“Aqui é um lugar muito gostoso. Nem parece que estamos dentro da cidade. As crianças adoram, pois podem brincar e ver os animais que vivem no parque, o nado dos peixes, o voo dos pássaros”, disse a babá Nubia Celia Siqueira, de 48 anos, que considera o parque seu espaço favorito na cidade. “Aqui é um lugar muito bonito e sossegado. Recarrega as nossas forças. Só não sabia que era uma mata ameaçada bem no meio de BH”, disse Maria Carolina Alves, de 34, também visitante da unidade de conservação.

Patrimônio natural

Confira algumas características do ecossistema

» O bioma
A mata atlântica é composta de um conjunto de formações florestais que se estendiam originalmente por aproximadamente 1,3 milhão de quilômetros quadrados, em 17 estados brasileiros (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Goiás, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia, Alagoas, Sergipe, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí). Segundo o Ministério do Meio Ambiente, hoje o que sobrou está reduzido a cerca de 22% da cobertura original e estima-se que apenas 8,5% estejam bem conservados em fragmentos acima de 100 hectares. Segundo a organização SOS Mata Atlântica, quase 72% da população brasileira vive em áreas desse ecossistema, conforme estimava o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística em 2014. São mais de 145 milhões de habitantes em 3.429 municípios.

» Biodiversidade
Mais de 20 mil espécies de plantas, sendo 8 mil endêmicas
849 tipos de aves
370 espécies de anfíbios
200 de répteis
270 de mamíferos
350 espécies de peixes

» Pressões
Lixo, poluição e outros impactos ambientais causado pelos mais de 145 milhões de brasileiros que habitam sua área
Desmatamentos que vêm desde a extração do pau-brasil, passando por ciclos econômicos como os da cana-de-açúcar, do café e do ouro Agropecuária
Industrialização e expansão urbana desordenada

Informações: https://www.em.com.br