Mau uso trava implantação de contêineres de lixo em São Paulo

Professor Resíduo
11:30:AM - 10/Apr/2018
Mau uso trava implantação de contêineres de lixo em São Paulo
(Rafael Balago/Folhapress)

Contêineres em rua de Corunha, na Espanha

10/04/2018| 11h30

No Brasil, é comum ver profissionais correndo pelas ruas para pegar os sacos de lixo e jogá-los nos caminhões de coleta. Há também inúmeras esquinas sempre cheias de entulho e sacos de sujeira. Para as duas questões, há uma mesma ideia que poderia melhorar as coisas: o uso de contêineres.

Nas ruas da Espanha, por exemplo, há unidades deles para receber os resíduos das casas e comércios a cada 20 ou 30 metros. Estas lixeiras grandes ficam nas calçadas ou na rua, perto da guia, entre os carros estacionados.

O uso deles evita que os sacos sejam colocados diretamente sobre o chão e ao ar livre. Sem lixo à vista, aumenta a sensação de limpeza no ambiente.

O modelo também facilita o recolhimento: os contêineres são encaixados no caminhão por um coletor, que aperta um botão e esvazia o recipiente sem contato com os resíduos. 

No Brasil, o lixo geralmente é colocado em cestos na calçada ou preso nos portões. E ambas as formas atrapalham a circulação dos pedestres.
Outra opção comum no país, especialmente nas periferias, é levar os rejeitos para perto de postes ou de muros. Ao ficarem no chão, os sacos são rasgados por cachorros e restos de comida se espalham. Se chove forte, esse material pode ir parar em bueiros e córregos, aumentando o risco de enchentes.

Tentativas de mudar esse modelo caminham devagar. Em 2012, a Loga, uma das empresas de limpeza pública de São Paulo, começou um teste de uso de contêineres na cidade, na região dos Jardins. Seis anos depois, há apenas 660 deles em uso.

O problema, segundo a Loga, é que os contêineres para lixo doméstico foram encarados pela população como caçambas de entulho.

“No caso dos Jardins, há o descarte de resíduos inapropriados por parte dos moradores e por carroceiros, que muitas vezes trazem materiais de outras regiões. Estes resíduos são de construção civil, móveis e grandes objetos e galhos, folhas e restos de poda”, explica Francisco de Andrea Vianna, coordenador de planejamento da Loga.

Como o entulho também é deixado ao redor dos contêineres, não há como fazer a coleta mecanizada. “A falta de fiscalização [sobre o descarte irregular] não inibe estas ações e atrapalha a expansão deste modelo”, diz Vianna.

Outra tentativa da empresa é a instalação de contêineres subterrâneos. Um projeto piloto, em Parada de Taipas, na zona norte, enfrentou o mesmo problema. Ali, foi feito um trabalho para orientar os moradores e um profissional vigia a área e impedir o descarte de entulho durante o dia. “Mas, infelizmente, há casos em que restos de construção civil e grandes objetos são deixados durante a noite”, lamenta Vianna.

São Paulo tem cem ecopontos, onde cada pessoa pode levar até 1.000 m³ de entulho por dia, por pessoa. Há multa de R$ 12 mil para quem for flagrado descartando nas ruas o que não deve, mas mesmo assim a prática segue. Um levantamento de 2016 feito pela prefeitura apontou a existência de 3,7 mil “pontos viciados”: lugares como terrenos, praças ou esquinas escolhidos informalmente pelos vizinhos para deixar sofás velhos, telhas quebradas e outras coisas.

A existência de tantas esquinas sujas e o mau uso dos contêineres deixam claro que ainda há grande demanda na cidade por lugares para receber o lixo. Muitos destes pontos viciados começaram com alguns sacos levados até ali por alguém que um dia não quis colocar seus restos em frente à própria casa. Se cada rua tivesse um contêiner ou algo similar a cada 30 metros, menos pontos viciados surgiriam e a cidade aos poucos ficaria mais limpa.

Informações: Folha de SP