Poluição: Ártico tem concentração recorde de microplásticos

Professor Resíduo
12:00:PM - 24/Apr/2018
Poluição: Ártico tem concentração recorde de microplásticos
Instituto Alfred Wegener/S.Arndt

Verificou-se que as concentrações de microplásticos no gelo marítimo podem chegar às 12 mil partículas por litro de gelo

24/04/2018| 12h00

Em três expedições, cientistas da Alemanha recolheram amostras de gelo marítimo do Ártico. Verificaram que as concentrações de microplásticos podem chegar a mais de 12 mil partículas por cada litro de gelo.

Os microplásticos estão cada vez mais a dominar o mundo. Até nas regiões mais remotas. Cientistas da Alemanha mediram agora a concentração de microplásticos no gelo marítimo de cinco regiões do oceano Ártico e concluíram que a quantidade destes plásticos milimétricos aumentou relativamente a medições passadas. Num artigo científico publicado esta terça-feira na revista Nature Communications mostram que as concentrações podem chegar a mais de 12 mil partículas por cada litro de gelo marítimo.

Entre a Primavera de 2014 e o Verão de 2015, cientistas do Instituto Alfred Wegener do Centro Helmholtz para a Investigação Polar e Marítima (Alemanha) partiram no quebra-gelo Polarstern em direção ao oceano Ártico. Ao todo, fizeram três expedições. Tudo para perceberem quantos microplásticos tem o gelo marítimo do Ártico. Portanto, nesse período, procuraram partículas de plástico, fibras, péletes e outros fragmentos com dimensões entre os poucos micrômetros (cada micrômetro equivale à milésima parte do milímetro) até aos cinco milímetros.

Os microplásticos são formados pela deterioração de peças maiores de plástico no mar ou surgem ainda em terra pela lavagem de têxteis sintéticos, pela abrasão dos pneus de carros ou já incorporados em produtos de limpeza corporal e cosméticos.

Nessas expedições, os cientistas recolheram amostras de cinco regiões do oceano Ártico desde a deriva transpolar (a maior corrente do oceano Ártico) até ao estreito de Fram (liga o oceano Ártico e o mar da Groenlândia). É neste espaço que acontece o transporte de gelo marítimo entre o Ártico Central e o Atlântico Norte. Depois, para calcularem a quantidade de microplásticos, os cientistas analisaram as várias camadas de gelo com um espectrômetro de infravermelhos e usaram um método matemático.

Observou-se então que as concentrações de microplásticos nas amostras do Ártico podem chegar a mais de 12 mil partículas por cada litro de gelo. “Usando esta abordagem, também descobrimos partículas de plástico que tinham apenas 11 micrômetros. Isto é aproximadamente um sexto do diâmetro de um cabelo humano e também explica por que é que encontramos concentrações de cerca de 12 mil partículas por litro de gelo marítimo – o que é duas a três vezes mais do que o que se encontrou em medições passadas”, indica Gunnar Gerdts, um dos autores do trabalho, num comunicado do Instituto Alfred Wegener. Quanto à quantidade total de microplásticos no oceano Ártico, não foram feitas estimativas, diz Ilka Peeken, principal autora do estudo, ao PÚBLICO.

Ao todo, foram encontrados 17 tipos de plástico no gelo marítimo como polietileno, polipropileno, tinta, nylon, poliéster e acetato de celulose.

Os microplásticos não estavam distribuídos de forma uniforme nas amostras de gelo. Para saberem de onde eram provenientes, os cientistas traçaram o caminho dos fragmentos de gelo. Conseguiram assim desvendar onde o gelo se formou, assim como as massas de água que tiveram influência na concentração de microplásticos. Percebeu-se que a maioria do gelo se formou na bacia Américo-asiática e na bacia euroasiática e que viajou pelo Ártico Central através da deriva transpolar. “Concluímos que a distribuição no Ártico Central é mais complexa do que considerámos antes”, lê-se no artigo.

Vestígios da ilha de plástico do Pacífico
A maior concentração de microplásticos foi encontrada em gelo recolhido no estreito de Fram e formado na bacia de Makarov (que faz parte da bacia Américo-asiática). Havia cerca de 12 mil partículas por litro nessas amostras. Mais a sul, foi observada a menor concentração em amostras do Norte de Svalbard e originárias da Terra de Francisco José (no Nordeste do mar de Barents, situado a norte da Noruega e da Rússia). Contabilizaram cerca de 1000 microplásticos por litro de gelo.

Já uma das maiores concentrações de partículas de polietileno (usado nas embalagens) estava em fragmentos de gelo originários da bacia canadiana (também na bacia Américo-asiática) e foram transportados por massas de água do Pacífico. “Supomos que esses fragmentos representam vestígios da denominada Grande Mancha de Lixo do Pacífico e são empurrados ao longo do estreito de Bering e do oceano Ártico pelo influxo do Pacífico”, escrevem os autores no artigo científico. Viu-se também que 67% das partículas no gelo têm 50 micrômetros ou menos.

“O gelo marítimo prende todo este lixo de plástico de dois a 11 anos no máximo – o tempo que os fragmentos de gelo dos mares pouco profundos da Sibéria ou da América do Norte levam a chegar ao estreito de Fram”, indica Ilka Peeken no comunicado. Por isso, os cientistas alertam para a grande quantidade de partículas de tinta e de nylon provenientes das redes de pesca encontrada no gelo dos mares pouco profundos da Sibéria. “Estes resultados sugerem que a expansão dos transportes e das atividades de pesca no Ártico estão a deixar as suas marcas. As grandes concentrações de microplásticos no gelo marítimo não devem ser apenas atribuídas a fontes fora do oceano ártico, mas também a poluição local.” 

Informações: https://www.publico.pt