Garimpeiros voltam a buscar fonte de renda em lixões de Londrina

Professor Resíduo
11:00:AM - 15/May/2018
Garimpeiros voltam a buscar fonte de renda em lixões de Londrina
Marcos Zanutto

-Aprendi a coletar material no lixão do Limoeiro

15/05/2018| 11h00

O projeto de coleta seletiva de Londrina denominado "Reciclando Vidas" mudou a vida de várias pessoas que sobreviviam da coleta de material que era descartado no aterro sanitário do Limoeiro (zona leste de Londrina). Implantado em 2000, o projeto foi criado para tirar as pessoas desse tipo de situação degradante. Naquela época havia pessoas que prospectavam recicláveis e outros materiais no lixão sem as mínimas condições de segurança e de higiene. Essa cena volta a se repetir, mas em outros pontos. A crise econômica tem feito muitas pessoas retomarem o chamado "garimpo" de lixo.

A reportagem circulou por vários pontos de descarte ilegal de entulhos na cidade e constatou que muitos estão vasculhando o material em busca de uma fonte de renda para sobrevivência. Esses pontos recebem, além de entulhos de construção civil, todo tipo de material orgânico e inorgânico misturado, transformando-os em lixões informais, porém sem o controle que a CMTU (Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização) realiza nos aterros oficiais, proporcionando riscos à saúde de quem manipula todo esse material.

Muitos desses garimpeiros são trabalhadores dispensados que não possuem qualificação profissional para atuar em outros segmentos econômicos. Maurício Gaspar Fernandes, 25, atuava como serralheiro até quatro anos atrás e ficou desempregado porque a empresa fechou. Como teve dificuldades de recolocação, voltou para uma atividade que ele já tinha feito antes, quando ainda era criança e adolescente, o garimpo de lixo. A reportagem o encontrou nas proximidades do descarte ilegal do Morro do Carrapato (zona leste). "Eu nasci em uma chácara que ficava abaixo do aterro do Limoeiro e a minha família sobrevivia coletando material lá. Eu aprendi a coletar lixo vendo o pessoal que estava sempre lá e passei a fazer isso também. Fiz isso até completar 17 anos, quando entrei na serralheria", relata.

Em 2010 o lixão do Limoeiro foi desativado e o aterro foi transferido para o distrito de Maravilha. "Aqui no Morro do Carrapato está do mesmo jeito que o lixão do Limoeiro. Encontro as mesmas coisas que encontrava lá. Eu já coletei televisão velha, computador, balde, bacia, galão e papelão. Dá para tirar um dinheiro, que não é suficiente para sobreviver, mas a gente vai empurrando com a barriga. Eu consigo porque muita gente passa aí e deixa arroz e óleo", destaca.

Ele expõe que a disputa pelos materiais recicláveis é grande. "O que dá mais dinheiro são as latinhas e peças de alumínio, mas são mais difíceis de achar", observa. "A concorrência está grande. Vem muita gente coletar material aqui, principalmente nos fins de semana", afirma, enquanto vasculha entre os entulhos de construção civil.

Outro garimpeiro do Morro do Carrapato é Leandro Mariano, 39, que reside em um barraco construído com material que ele coletou por lá. "Nasci no jardim Franciscato (zona sul) e trabalho como pedreiro, mas hoje a minha fonte de renda mais forte é catar uma sucata. Comecei essa atividade quando fiquei desempregado e não consegui mais pagar aluguel. Aí me mudei para cá, mas a minha mulher não quis me acompanhar e foi morar com a família dela e me deixou para trás", relatou.

Ele aponta que praticamente montou a sua casa com as coisas que achou no ponto de descarte ilegal. "Com exceção da geladeira, que ganhei da minha irmã, e da TV, que consegui trocando mercadorias, o restante achei tudo no lixão. Peguei um aparelho de DVD, um aparelho de som, fogareiro, cama, colchão, CD. A gente acha bastante coisa lá. Toda a madeira do barraco também é do lixão", relata, acrescentando que a telha do barraco também foi obtida no local.

COOPERATIVAS
Foi pelo projeto Reciclando Vidas que teve início a organização das cooperativas de recicladores e logo a população se acostumou a segregar os materiais e a colocar o que poderia ser reutilizado em sacos plásticos verdes. A iniciativa ganhou elogios e chegou a ser premiada no Brasil e no exterior. Por meio dela, muitas pessoas deixaram a vida de garimpeiros do lixo e passaram a coletar o material reciclável nas casas das pessoas e o produto desse trabalho passou a ser revendido para gerar renda aos cooperados.

Situação preocupa cooperativas

A CMTU (Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização) disse, por meio da assessoria de imprensa, ter ciência de que existe a prática do garimpo em locais de descarte irregular. Segundo a companhia, muitos desses garimpeiros eram integrantes de cooperativas de coleta seletiva e alguns deles chegaram a entrar em contato com a CMTU tentando legalizar sua situação. Ainda de acordo com a assessoria, não é proibido de pegar o material que é descartado em locais ilegais para comercializá-lo. A CMTU, explicou a assessoria, orienta as cooperativas como deve ser a logística de coleta e há também um trabalho direto sobre como lidar com os garimpeiros.

A presidente da cooperativa Coocepeve, Sandra Araújo Barroso, afirmou que houve um retrocesso na coleta de recicláveis em Londrina e confirma que muitos dos garimpeiros são ex-cooperados, que só pensam nos ganhos individuais, sem se preocupar com o futuro. "Eu que sou pioneira no setor entendo que é uma situação que preocupa. Começamos com esse trabalho e em 2009 recebemos um prêmio internacional que tornou Londrina reconhecida em toda a América Latina”, apontou. Ela reconhece que a CMTU orientou as cooperativas sobre o problema dos garimpeiros, mas afirma que tem dificuldades para combater isso. "Nas cooperativas a maiorias das funcionárias são mulheres e precisam deixar seus filhos nas creches; esses garimpeiros são em sua maioria homens e passam nos locais recolhendo os materiais que possuem mais valor antes da gente", apontou.

Barroso relembrou o período que trabalhava como garimpeira no lixão do Limoeiro, na década de 1990. "Entrei no lixão em 1996. Quem entrava antes tinha o direito de escolher que tipo de material poderia coletar. Tinha gente que pegava só papelão, outros pegavam só garrafa PET. Eu pegava só latinhas de alumínio, que na época não tinha tanta comercialização como hoje." Ela aponta que esse respeito não existe mais. "Me machuca muito ver a volta dos garimpeiros, mas se o poder público não melhorar a situação, eu não vejo mais razão para continuar trabalhando em uma cooperativa", desabafou.

O presidente da Cooper Refum, Zaqueu Vieira, ressaltou que a atuação dos garimpeiros afeta bastante o trabalho das cooperativas. "Tem que ter jogo de cintura para não ficar sem material. Tem garimpeiros individuais usando carro, carroça, caminhão e moto", observou. "A gente vê com olhar social, mas para a cooperativa eles não querem vir. A preocupação é que as cooperativas possuem deveres e responsabilidades e esses catadores individuais não. O que eles não aproveitam vai tudo para o fundo de vale."

Ajuda ao próximo com produtos descartados

A dona de casa Neusa Alves Conceição, 65, viu uma oportunidade de ajudar o próximo nos produtos descartados no local conhecido como Morro do Carrapato (zona leste de Londrina). Ela coleta principalmente roupas, que são doadas para as mais necessitadas. "Eu lavo tudo, uso um amaciante bem cheirosinho, passo e se encontro alguém que precisa de roupas, entrego", revelou. "Tem cada calça boa que acho ali. Às vezes vem com cheiro forte, mas depois de lavar fica muito cheirosinha", destacou.

Ela conta que é possível encontrar roupas para mulheres e homens e de modelagens adultas ou infantis. Além das roupas, ela também já coletou armários e colchões. "Muitas vezes o colchão está rasgado. Eu arranco o tecido, coloco o colchão no sol, jogo álcool e coloco uma capa nova que eu mesma costuro usando lençóis v,elhos", explicou.

Outros objetos que ela coleta para distribuir para pessoas carentes são utensílios de cozinha, como colheres e panelas. "Jogam muita coisa boa. Dá satisfação fazer esse trabalho. É um favor que faço para os outros", resumiu, dizendo que não é ligada a trabalho social promovido por alguma igreja.

Vez ou outra Conceição encontra latas de alumínio que recolhe para ajudar os netos. "Muitas vezes eles precisam de dinheiro para remendar pneus de bicicleta ou para comprar material escolar", justificou. Mas conta que é preciso paciência, porque elas são escassas. "É preciso juntar as latinhas por seis ou sete meses para poder revender, porque são poucas as que encontro aqui", lamentou.

REFORMA
O lavrador aposentado João Passarinho, 77, percorre os pontos de descarte ilegal de entulhos nas ruas Guilherme Branco Neto e Antônio Batistela, no jardim Lago Norte (zona norte de Londrina), pelo menos três vezes ao dia em busca de alguma material que possa lhe render algum dinheiro ou que sirva na reforma de sua casa. "Consegui me aposentar por idade com 65 anos. Hoje vendo alumínio a R$ 3 por quilo, mas preciso de 68 latinhas para dar um quilo. O problema é que demora muito para juntar essa quantidade", apontou.

Passarinho relata que muita coisa boa é desperdiçada no local. "Uma vez um caminhoneiro jogou uma cozinha de caminhão. Estava completa, tinha panela de pressão, caçarola, faca. Eu fiquei contente. Eu usei as panelas até pouco tempo atrás, mas agora comprei outras", observou, dizendo que sempre encontra algo útil. "Pego bastante madeira, porque eu tenho fogão a lenha que uso para economizar gás. Eu faço o feijão nele e fica muito bom", apontou.

Quando a reportagem o encontrou ele estava com canos de PVC na mão, que foram descartados em meio a muitos entulhos de construção civil. "Olha, isso aqui dá para aproveitar em uma reforma que vou fazer na minha casa. Já achei aqui desempenadeira, canos, colher de pedreiro e saco de cimento."

Informações: https://www.folhadelondrina.com.br