A luta dos garis por respeito e visibilidade

Professor Resíduo
02:00:PM - 16/May/2018
A luta dos garis por respeito e visibilidade
(Foto: Gustavo Azevedo/Agência O Globo )

Garis trabalham na região do centro do Rio de Janeiro

16/05/2018| 14h00

Indiferença de pedestres e motoristas com profissionais da limpeza é resultado da desigualdade social no país, afirma psicanalista

Valdo Luís Marques, de 51 anos, trabalha há 16 anos como gari no Rio de Janeiro. Sabe bem que, apesar do laranja berrante, o uniforme da Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb) funciona como uma capa de invisibilidade. Os profissionais que o vestem deixam de ser notados por boa parte dos pedestres e motoristas, ainda que desempenhem um trabalho fundamental para a cidade. Marques acredita que essa indiferença resulta de uma série de equívocos sobre a atividade — cuja importância é comemorada neste 16 de maio, o Dia do Gari.

Um dos erros é acreditar que pegar na vassoura é sinônimo de baixa escolaridade. “Tem esse rótulo de que, se não estudar, você vai virar gari. Não! Se não estudar, você não se torna um de nós”, disse. Para integrar o time de 14.272 profissionais que ajudam a zelar pelo Rio de Janeiro, é necessário ter concluído o 5º ano do ensino fundamental e responder a 20 questões objetivas de língua portuguesa. A competição é digna de um vestibular. No último concurso, realizado em 2015, foram 79.600 inscritos disputando 100 vagas.

Morador de São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio, Marques acredita que contribui para a indiferença da população a ideia equivocada de que o gari não preza pela própria higiene. A essas pessoas, avisa: “Não é por aí. Não é porque o cara é gari que ele vai andar com a unha suja. Não é porque o cara é gari que ele vai andar todo sujo. Tem de ter um marketing pessoal.”

Com brinco cintilante na orelha e um quê de locutor na voz, Marques é uma das pessoas que ajudam a recolher todos os dias entre 9 mil e 10 mil toneladas de lixo das ruas do Rio. Embora reconheça que a maioria evita a prática, o profissional ainda vê alguns cariocas deixando as lixeiras de lado para descartar o lixo no chão. Quando questionados, dizem que fazem isso para garantir que o gari não perca o emprego por falta de lixo. Para Marques, a desculpa não convence. “Isso é mito. Agora, imagina se o cara vai tacar fogo na casa dele para manter o emprego do bombeiro? Vai deixar as portas abertas para dar emprego para o policial? Existe gente que tem essa mentalidade de que, se não sujar, vou perder o emprego. Não, eu sou concursado, meu amigo.”

Apesar de sentir que alguns ainda tratam garis com indiferença, Marques não esconde o orgulho da profissão. “Adoro o que faço. Nós somos hoje zeladores do meio ambiente. Minha profissão é igual à de um arquiteto, à de um professor. Nada os diferencia da gente,”. E recomenda ainda um exercício de empatia aos que reservam preconceitos a uma função que, em suas palavras, “é tão nobre”.

O psicanalista Fernando Braga da Costa conheceu de perto a realidade de profissionais como Marques. Por dez anos, trabalhou varrendo as ruas da Universidade de São Paulo (USP), onde fazia mestrado em psicologia. A partir da experiência, nasceu o livro Homens Invisíveis: Relatos de uma Humilhação Social, lançado em 2004. Costa, de 42 anos, contou que o interesse pelo tema surgiu ainda na graduação, quando precisou trabalhar como gari para uma atividade acadêmica.

Logo no primeiro dia foi fácil perceber como um uniforme pode determinar quem é visto e quem é ignorado. “A experiência mais aguda em termos intersubjetivos, de contato humano a respeito da invisibilidade, foi ter passado por dentro da faculdade em que estudava”, relembrou. Ao ser visto uniformizado, Costa esperava despertar a curiosidade dos colegas e, quem sabe, virar alvo de gozações. No entanto, contrariando qualquer expectativa, nem sequer foi notado.

Para o especialista, esse fenômeno é fruto de um país ainda pautado pela desigualdade. “Quanto maior o fosso social, maior a probabilidade de o sujeito pobre não ser tomado como um ser humano, a ponto de não receber um simples cumprimento.” De acordo com ele, o processo acaba naturalizado, já que poucas pessoas o encaram como um problema capaz de gerar consequências psicossociais, como a depressão.

“Isso vai cravando no indivíduo certas convicções que vão controlar seu comportamento. Determinarão os lugares que ele considera confortável e autorizado a estar. E, obviamente, ele não pode voltar para a casa como quem usufrui do espaço público de uma forma livre”, avaliou. Com frequência, os efeitos desse processo podem ser denunciados pelo corpo das pessoas, por meio de gestos e olhares. “É possível encontrar inclusive repercussões físicas, porque se observa claramente no andar dessas pessoas, no olhar, na postura física, que o corpo delas não está à vontade. O olhar em geral pode estar rebaixado, pode estar intimidado”, analisou Costa.

Inspirados pela experiência do psicanalista, 12 magistrados do Rio de Janeiro abandonaram por um dia o formalismo dos fóruns para viver a rotina de quem trabalha com prestação de serviço. O desembargador Marcelo Augusto, de 52 anos, foi um dos participantes do projeto Vivendo o Trabalho Subalterno e atuou como gari em Botafogo, Zona Sul do Rio. “O projeto trabalha uma coisa essencial quando se fala de judiciário e magistratura: ele trabalha o olhar do juiz. Trabalha a pessoa do juiz, e não o cognitivo. Trabalha quem ele é”, disse ao explicar a iniciativa.

O desembargador comentou também que, logo nas primeiras horas da experiência, uma pergunta ganhou coro entre os garis: “Por que seu uniforme é tão novo?”. O estranhamento dos profissionais não era à toa. “Fui descobrir depois que naquele ano não tinha sido distribuído uniforme novo para a galera”, explicou. O magistrado lembrou que, enquanto varria uma praça de Botafogo, um homem forte, corpulento, desceu do caminhão de lixo em que estava, olhou em sua direção e repetiu a pergunta que havia se tornando onipresente: “Por que seu uniforme está tão limpo assim?”.

“Expliquei para ele que era meu primeiro dia de trabalho. A reação do cara foi muito interessante. Ele abriu os braços e falou: ‘Parabéns! Seja feliz. Que você goste do serviço. É muito legal.’” Situações como essa mostraram ao magistrado que, embora exija preparo físico, manter a cidade limpa é um trabalho rico em diversos aspectos. Naquele dia como gari, disse não ter se sentido ignorado pelos transeuntes, que com frequência o cumprimentavam. No entanto, destacou outra espécie de invisibilidade que por vezes é esquecida.

Apesar da cor laranja dos uniformes ter sido adotada para evitar acidentes — projeto do renomado designer Aloisio Magalhães (1927-1982) implantado em 1976 —, eles ainda acontecem por desatenção dos motoristas e motociclistas. “O pior inimigo do gari é o trânsito. Há muitos relatos de atropelamento, de licença médica por conta disso. Há toda uma técnica para você varrer o passeio público, a canaleta, para se proteger do carro. Os carros não respeitam”, afirmou.

Sharlene Paula, de 33 anos, trabalha como gari há três anos e disse ter presenciado situações em que a imprudência dos motoristas por pouco não terminou em tragédia. “Os quase acidentes que presenciei têm mais relação com os motoristas que estão sempre dirigindo com o celular na mão. Então não veem a gente, não veem o carrinho e acabam batendo. Com relação ao gari, sempre há reuniões nos alertando sobre isso”, disse. Nessas reuniões, eles recebem orientações sobre métodos para evitar acidentes, como não usar fones de ouvido e pôr o carrinho sempre à frente, de modo a ser alertado em caso de batidas.

Se os motoristas parecem ignorar o trabalho dos garis, Paula afirmou ter o trabalho reconhecido por quem passa na rua. Não pensa duas vezes ao responder o que mais gosta na profissão: “O melhor é trabalhar na rua, ter contato com o público, que é uma coisa que gosto muito, ver o movimento”. E o lado ruim? “É o sol. O sol do Rio de Janeiro realmente não é bom”, disse às gargalhadas.

Fonte: Revista Época