Plástico: o perigo da demonização

Professor Resíduo
06:00:PM - 23/May/2018
Plástico: o perigo da demonização
Divulgação/Plasticus Maritimus

Canudinhos recolhidos nas praias pelo projeto português Plasticus Maritimus

22/05/2018| 18h00

Por Helio Mattar

Estudo diz que troca do plástico por materiais semelhantes poderia aumentar custo ambiental

Caso você tivesse o superpoder de extinguir o plástico da Terra, você o faria? A grande campanha contra o plástico parece indicar que muita gente gostaria de fazê-lo, de conseguir que, em um estalo de dedos, acabasse esse material que vem sendo demonizado por se acumular nos oceanos e provocar, em um grau difícil de ser estimado, a morte de animais marinhos.

Mas não se engane: uma recente campanha contra o plástico (Break Free from Plastics),  embora tenha uma chamada que parece voltada a todo o plástico, na verdade se foca no “plástico de uso único”, como por exemplo, as sacolas descartáveis de supermercado e os canudos plásticos.

A razão para o plástico estar tão presente na vida contemporânea é pelas suas características positivas, pois é um material versátil, higiênico, moldável, flexível, barato, durável e resistente, que pode ser usado em um número enorme de aplicações. Como exemplo, a água melhora de qualidade quando o plástico é adotado nas tubulações; diminuem as doenças propagadas nos hospitais pelo uso de acessórios plásticos, alguns deles descartáveis; e os alimentos são preservados melhor e mais longamente pelo uso de embalagens plásticas.

Na verdade, caso o plástico usado nos produtos de consumo e nas embalagens fosse substituído por um conjunto de materiais que desempenhem a mesma função (como o vidro, o alumínio, o papelão, entre outros), os custos ambientais anuais aumentariam de US$ 139 bilhões para US$ 533 bilhões, segundo estudo da Trucost.

O termo “custo ambiental” expressa o valor monetário dos impactos sobre o meio ambiente de uma determinada atividade. Em outras palavras, segundo esse estudo, substituir o plástico por outro material não só não traria benefícios ambientais mas causaria prejuízos adicionais.

Em um exemplo, a Trucost estima que a substituição de componentes plásticos por materiais alternativos apenas nos veículos de passageiros vendidos na América do Norte em 2015 levaria a um aumento na demanda por combustível em mais de 336 milhões de litros de gasolina e diesel, a um custo ambiental de US$ 2,3 bilhões.

O fato é que, embora os méritos do plástico não descartem os seus inconvenientes, não se pode esquecer que o plástico teria que ser substituído por outros materiais, que, por sua vez, também teriam inconvenientes.

O baixo custo dos plásticos disseminou o seu uso, o que levou a um aumento da sua produção e ao consequente aumento no volume de seus resíduos. A produção global cresceu 20 vezes em 50 anos, de 15 milhões de toneladas em 1964 para 311 milhões de toneladas em 2014, segundo a Plastics Europe, associação de fabricantes de plástico da Europa.

Uma das consequências negativas mais apontadas é que cerca de 8 milhões de toneladas de plásticos são despejados nos oceanos a cada ano, segundo estudo publicado em 2015 por pesquisadores da Universidade da Georgia – o que equivale a despejar nos mares o conteúdo de um caminhão de lixo por minuto!

Mas isso quer dizer que se deve demonizar o plástico? Não. Isso quer dizer que se deve dar preferência ao uso do plástico onde as suas melhores qualidades são aproveitadas e evitar o seu uso em produtos descartáveis desnecessários, tais como a sacola descartável, que pode ser substituída por uma sacola durável; os canudos plásticos de uso único, que podem perfeitamente não ser usados a não ser em um pequeno punhado de situações; e os talheres plásticos descartáveis que podem ser substituídos pelos tradicionais de metal, a não ser para umas poucas utilizações específicas. Aliás, já tratei dessa questão anteriormente nesta coluna ao tratar da importância de evitar os produtos plásticos de uso único.

Portanto, devemos reconhecer e aproveitar os benefícios dos usos nobres do plástico e devemos evitar o seu consumo em produtos de uso único que possam ser substituídos com vantagens por outros materiais. Mas, vejam bem, é importante que sejam substituídos “com vantagens” e não simplesmente substituídos por qualquer material.

Um exemplo da utilização do plástico de uso único, necessário em certas circunstâncias e desnecessário em outras, é o das garrafas de água. A Euromonitor estima que um milhão de garrafas plásticas de produtos variados é comprado por minuto no mundo (20 mil garrafas por segundo!) e que esse número deve aumentar em 20% até 2021. Se puderem ser substituídas pelo uso de garrafas reutilizável (provavelmente também de plástico), reabastecidas continuamente com água filtrada, contribui-se para reduzir o volume de resíduos plásticos a serem reciclados. Nem sempre é possível prescindir da garrafa plástica de água, mas quando possível substituir por uma garrafa reutilizável (e durável) isso deve ser feito.

A realidade é que, dadas as qualidades do plástico, o seu uso, em muitos casos, tanto em produtos de consumo quanto em embalagens, viabiliza a produção e distribuição em grande escala com menores custos ambientais. O exemplo mais expressivo é o da produção e distribuição de alimentos, onde existe um grande uso de material plástico nas embalagens que contribui enormemente para evitar a deterioração dos alimentos. As embalagens permitem uma sobrevida aos produtos e permitem seu transporte a longas distâncias e sua estocagem por mais tempo, seja nas fábricas, nos pontos de venda ou nas prateleiras de nossas casas. Essa preservação por mais tempo, pelo uso das embalagens plásticas, tem um custo ambiental muito menor que o associado ao desperdício de alimentos, muitas vezes maior que o custo ambiental do plástico em si.

Como medida de melhoria dos impactos do uso do plástico, a indústria que utiliza embalagens de plástico vem procurando conduzir uma transição para a chamada “economia circular”, buscando educar o consumidor para a separação dos resíduos e o seu envio para a coleta seletiva, além de trabalhar com os recicladores para melhorar a eficiência e da recuperação de plásticos.

Além disso, a indústria vem trabalhando na substituição dos plásticos que não são passíveis de reciclagem. Esse é um esforço fundamental, que exige uma grande dedicação de modo a permitir que todo plástico usado em produtos e em embalagens possa ser reciclado.

Por outro lado, há uma aplicação do plástico, na forma de microesferas, em produtos de higiene e beleza como esfoliantes faciais, sabonetes líquidos e pastas de dente. Essa aplicação tem sido corretamente objeto de muitas críticas, pois, por conta de seu pequeníssimo tamanho, as microesferas de plástico terminam por ser imperceptivelmente liberadas quando em contato com a água do banho ou com a água do mar. Quando no mar, entram na cadeia alimentar dos peixes e podem chegar até o nosso prato. Além disso, em muitos casos, as microesferas não são capturadas pelas estações de tratamento de água, podendo poluir a água que se toma. Para evitar isso, o consumidor consciente pode usar o aplicativo "beat the micro bead" que informa, para diversos produtos de higiene e beleza, se as microesferas plásticas foram ou não eliminadas da sua composição.

E o que mais o consumidor consciente pode fazer? Se esse consumidor acredita que uma empresa pode melhorar a forma de uso, de separação ou de coleta do plástico, não precisa se acanhar. As melhores empresas ouvirão suas críticas e sugestões e buscarão incorporá-las no projeto de seus produtos.

Obviamente, as empresas têm o desafio de buscar soluções de melhor impacto, a curto, médio e longo prazo. Inovações na tecnologia do plástico vêm ocorrendo tanto na direção do desenvolvimento de matérias-primas alternativas e mais sustentáveis quanto na de decomposição dos resíduos plásticos. A Lego, fabricante dos famosos blocos de montar, por exemplo, começou a utilizar, em alguns dos seus produtos, um plástico produzido a partir da cana-de-açúcar como matéria-prima, cuja produção emite muito menos gases de efeito estufa (causadores do aquecimento global). E é um plástico que, como aqueles produzidos a partir de derivados de petróleo, não se degrada, o que significa que os brinquedos dessa empresa terão sua vida útil estendida ao máximo, podendo até mesmo passar de geração em geração.

De outro lado, a indústria vem buscando continuamente melhorar as embalagens plásticas de modo a trazer ganhos não só na pegada ambiental do plástico propriamente dito, mas também nas fases de logística e na de gestão de resíduos.

Já por parte dos governos, a tarefa básica é melhorar os serviços municipais de coleta de lixo e as práticas de gestão de resíduos. Mais que isso, a criação de tributos para produtos descartáveis de uso desnecessário, aumentando assim o seu custo, levará o consumidor a pensar em alternativas, muitas delas também em plástico, mas de uso durável. Além disso, este tributo poderia ser destinado pelos governos ao favorecimento da reciclagem em geral e do próprio plástico em particular.

Finalmente, é preciso chamar atenção para o papel fundamental do consumidor no processo de reciclagem, conscientizando-o para a importância de fazer a separação e a destinação corretas dos resíduos, apontando que o plástico reciclado consome muito menos energia na sua produção do que o produzido a partir da matéria-prima virgem, desta forma ajudando a combater as mudanças climáticas. E, além disso, beneficiando os catadores de resíduos, uma população com pouquíssimas alternativas de trabalho e de geração de renda.

Caso o consumidor não se engaje na separação e destinação correta dos resíduos, os melhores atributos de sustentabilidade relacionados ao plástico poderão ser insuficientes para a sustentabilidade da sua cadeia de valor como um todo, mantendo-se a tendência de posições extremas contra o plástico. Uma pena, pois tenho certeza de que a única coisa que deve ser extrema é a escolha pelo consumidor de só usar produtos descartáveis quando não há outra opção melhor e de sempre fazer a separação dos resíduos plásticos e mandá-los para a reciclagem.

Fonte: Folha de SP