Em entrevista, especialista explica como Brasília pode ser uma cidade 'lixo zero'

Professor Resíduo
03:30:PM - 04/Jun/2018
Em entrevista, especialista explica como Brasília pode ser uma cidade 'lixo zero'
(Foto: Reprodução/TV Globo )

Vidro recolhido para reciclagem

04/06/2018| 15h30

Boas práticas adotadas na cidade serão exibidas em evento internacional. Meta para redução de 80% dos resíduos sólidos pode ser alcançada em até 5 anos.

A quadra 113 Sul, em Brasília, se tornou uma espécie de "ilha sustentável" no centro da capital federal. O título faz referência às soluções encontradas pelos moradores para separar o lixo, reaproveitar os materiais e reduzir o volume de resíduos sólidos descartados no aterro sanitário.
Desde abril, todas as embalagens de vidro usadas nas casas de mais de 1,2 mil pessoas passaram a ser reaproveitadas ou enviadas às cooperativas de catadores. Outros materiais que também demorariam para ser degradados na natureza, como garrafas plásticas, ganharam novas utilidades e mais cuidado na hora da separação do lixo.

Em pouco tempo, as boas práticas adotadas reduziram a produção de lixo em 0,6 tonelada por semana, em média. A quadra mostra como todo o Distrito Federal poderia se transformar em uma região de "lixo zero".

Apesar de ainda serem enviados ao aterro, os resíduos orgânicos produzidos nos 11 blocos residenciais e na escola da quadra, em breve, também vão ganhar novo destino. Esse lixo passará a ser reunido e levado para decomposição em espaços controlados de compostagem – um processo biológico de "reciclagem" desses itens. (veja modelo abaixo)


EcoVila
Do outro lado do DF, no Gama e em Santa Maria, condomínios voltados para familiares de servidores da Marinha do Brasil decidiram seguir o passo a passo da sustentabilidade. Até 2020, os moradores pretendem abolir as caçambas de lixo das vias internas.

A expectativa dos moradores da EcoVila Naval é reaproveitar tudo o que for possível, e fazer da região mais um ponto sustentável no DF.

Os exemplos de aplicabilidade das "soluções verdes", apesar de ainda pouco conhecidos dentro de Brasília, já ganharam o mundo e, a partir desta semana, serão usados como exemplos bem-sucedidos no I Congresso Internacional Lixo Zero.

O encontro será no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, entre terça (5) e quinta (7), período marcado pela Semana Mundial do Meio Ambiente. A primeira edição do evento vai reunir especialistas do mundo todo para apresentar e debater as melhores práticas e tecnologias usadas para o gerenciamento de resíduos sólidos.

O presidente do Instituto Lixo Zero Brasil, Rodrigo Sabatini, conversou com o G1 sobre o assunto e afirmou que "o DF tem potencial para eliminar o lixo em até 5 anos". Os meios para isso, o especilista diz que são "viáveis" e dependem basicamente de uma "mudança de sistema", mais do que da, já tão falada, "conscientização".

Leia a entrevista e veja como, segundo Sabatini, a capital do país pode se tornar modelo em sustentabilidade e redução eficaz no volume de lixo produzido e descartado pela população.

Confira, abaixo, a entrevista com Rodrigo Sabatini:

G1:Como os moradores do Distrito Federal podem reproduzir as práticas de sustentabilidade e tornar a região uma área "lixo zero"?
Rodrigo Sabatini: Para começar, é importante que cada pessoa conheça seu próprio lixo. Um bom passo é separar em três porções, no máximo: uma porção orgânica, outra de reciclados – para embalagens – e outra de rejeitos, que é aquilo que será mandado para o aterro sanitário.
Para os orgânicos, a compostagem comunitária, juntamente com o cultivo de uma horta, seriam uma revolução em Brasília e exemplo para o mundo todo. Há diversas técnicas – depende se é uma região de casas ou de apartamentos, com ou sem sacada, por exemplo.
Depois da compostagem, tem que dar o destino correto às embalagens. Aí recomendo que as pessoas tenham uma caixa e acumulem suas embalagens por uma semana ou mais para saber como funciona. Isso é para ser ter a consciência do volume produzido.
Outra coisa importante é higienizar esse lixo. É um processo essencial para a logística e estocagem desse material. Tendo isso, dá para trabalhar com lixos eletrônicos, sanitários, de saúde... Essas coisas iriam para aterro, de 10 a 20% ainda vai para lá.

G1: Quais características e peculiaridades apontam que Brasília tem potencial para ser uma região "lixo zero"?
Sabatini:
O DF tem uma técnica muito aplicada, que é a zona lixo zero: cada quadra pode se tornar uma. Isso causará um impacto no todo.
O clima no DF favorece a compostagem, e o urbanismo e a disposição da cidade são dois grandes fatores para [a prática] ser um sucesso aqui.
Outra coisa que ajuda, é que já existe uma consciência grande no Brasil [sobre meio ambiente]. Temos uma consciência, a gente quer fazer o certo, mas a gente não sabe como. No momento que souber como fazer e tiver um desenho do sistema lixo zero, será mais eficaz.

G1: O que pode ser feito para que essas práticas se tornem aplicáveis em cada região do DF? Para que sejam naturais no dia a dia das pessoas e dos gestores?
Sabatini:
Hoje, apenas 3% dos materiais produzidos em Brasília vão para a compostagem. O que impede [a expansão da prática] é a facilidade que o sistema coloca para se eximir da responsabilidade.
Esse sistema te empurra a produzir lixo e a jogar diretamente no aterro. Em relação às empresas de coleta e tratamento de lixo, por exemplo, o objetivo delas é coletar e dar destino ao lixo, mas o ideal é que essas empresas se transformem para serem gestoras de recursos.
O SLU [Serviço de Limpeza Urbana] tem alto índice de qualidade porque dá destino a todo o lixo que coleta. Para um novo modelo econômico, mais ético, é preciso que a empresa seja gestora de recursos e possa, então, abrir mais possibilidades.

G1: E para o cidadão comum, na rotina de casa ou do trabalho, o que pode ser feito para a redução expressiva do lixo produzido?
Sabatini:
Cada pessoa pode reusar o canudinho, por exemplo, ou as sacolas plásticas. Pode comprar uma embalagem mais fácil de ser decomposta, ou até mesmo evitar coisas com embalagem. Dá para comprar a granel sempre que possível, e evitar o desperdício de alimentos.
É o que chamamos de "single use" [uso único]. Toda vez que você puder evitar o copo de plástico, a embalagem de isopor, já é uma grande ação. Porque nós somos cidadãos-consumidores: consumir faz parte do sistema, então, temos que tomar inúmeras decisões, mesmo que pequenas, todos os dias.

G1: Quais seriam os impactos econômicos de uma vida com menos lixo, ou mais reaproveitamento?
Sabatini:
Se todos fossem "lixo zero", teríamos muitas outras atividades que ainda não existem, indústrias mais complexas. O sistema hoje está concentrado numa indústria de coleta e armazenamento de lixo.
Poderia haver mais brechós, gente reciclando plástico, madeira e papel. Gerando muito mais emprego e mais renda.
Quem adota esse modelo relata uma vida mais barata, mais consciente, mais regrada. Quem assume um consumo desse, com o tempo, será mais minimalista, vai comprar menos, alugar mais e deixar mais dinheiro para outras coisas. Aí a vida fica mais simples, mais barata e gera uma nova economia.

G1: O lixão da Estrutural durou 68 anos no DF com o título de maior depósito de lixo da América Latina. Foi fechado no início do ano. Houve algum impacto no entendimento do governo e da sociedade?
Sabatini
: Era uma vergonha para cidade. O aterro é uma solução melhor. Foi uma obrigação legal de fechar.
Acho que Brasília está dando um salto muito grande nos últimos anos com políticas públicas e iniciativas da sociedade civil que estão mobilizando de modo muito forte.
Algumas iniciativas de inclusão das cooperativas de catadores foram decisões inovadoras, e espero que tenham grande êxito. O caminho para o catador é tomar mesmo conta do território.

G1: A nova geração de moradores conviveu pouco com o lixão, mas parece ser mais engajada com questões ambientais, com a sustentabilidade. Dá para esperar uma sociedade mais consciente?
Sabatini:
Ao mesmo tempo em que temos essa geração de jovens mais conscientes, com muita informação, temos também os mais velhos, que sabem como foi antes do plástico tomar conta de tudo. Eles viram todo o processo, acham que podem fazer algo. Quem está no meio ainda não sabe em que lado está.

Informações: G1