Pilhas de lixo sobrecarregam a capital da Índia

Professor Resíduo
12:00:PM - 15/Jun/2018
Pilhas de lixo sobrecarregam a capital da Índia
Foto: Saumya Khandelwal para The New York Times

Numa cidade superlotada onde o ar é poluído e a água é suja, montanhas de lixo começam a trazer sérias ameaças para a saúde

15/06/2018| 12h00

Nova Délhi tem avalanches de lixo mortíferas e ventos que trazem infecções; os lixões da cidade estão entre os maiores e mais tóxicos do mundo

Agachada num cômodo fedorento perto da capital da Índia, Rammurti olhava furiosa para a pilha de lixo a menos de um quilômetro da sua casa, cuja altura é equivalente à de um prédio de 17 andares.

Esta mãe de 43 anos que responde apenas pelo primeiro nome acompanhou o crescimento da pilha de lixo em Ghazipur ao longo dos anos. Esta exala partículas que infectaram os vizinhos com tuberculose e dengue, amarelaram as folhas das árvores e deram à água do lençol freático subterrâneo uma coloração podre.

Mas nada a preparou para os acontecimentos de uma tarde de setembro do ano passado, quando uma torre de lixo desmoronou durante as chovas torrenciais da época das monções. O lixo caiu num canal próximo, criando uma onda de esgoto que jogou os motociclistas num outro canal sujo.

Duas pessoas morreram. Uma delas era o filho de Rammurti, Abhishek Gautam, de 19 anos. “O lixão matou meu filho", disse ela.

Na área metropolitana de Délhi, que inclui Nova Délhi, cerca de 36,3 bilhões de quilos de lixo foram acumulados em quatro locais designados oficialmente como lixões, nos arredores de uma capital já sitiada pelo ar poluído e pela água tóxica. Os lixões se tornaram alguns dos maiores, mais tóxicos e menos supervisionados depósitos de lixo de todo o mundo, disse Ranjith Annepu, cofundador da Waste Wise, uma organização sem fins lucrativos.

Em resposta ao problema, o governo indiano prometeu este mês eliminar o plástico de uso único até 2022. “Reitero nosso compromisso com o desenvolvimento sustentável", disse o primeiro-ministro Narendra Modi.

Mas, em Délhi, o poder é partilhado entre o governo nacional e o governo local, controlados por partidos diferentes, o que produz impasses. Algo tão simples quanto a instalação de lixeiras em Délhi não foi feito, em parte porque muitos moradores estão acostumados a jogar o lixo no chão. As pilhas de porcaria se acumulam.

Nas duas décadas mais recentes, a população de Délhi aumentou de 12 milhões para 19 milhões de habitantes, aproximadamente, e a infraestrutura e os serviços do governo não conseguiram acompanhar a expansão. Durante esse mesmo período, a quantidade de lixo trazida para os depósitos aumentou de 3,6 milhões de quilos para pelo menos 9 milhões de quilos por dia. Cerca de metade desse volume é convertido em energia ou usado na compostagem. O restante apodrece, de acordo com P.K. Khandelwal, engenheiro-chefe da East Délhi Municipal Corporation, agência do governo local.

A suprema corte disse no início do ano que o controle de tráfego aéreo do aeroporto internacional de Délhi seria obrigado a desviar a rota dos voos para evitar os lixões. E outro tribunal alertou as autoridades para a possibilidade de funcionários serem acusados de homicídio se os moradores morrerem de doenças como a dengue, transmitida por mosquitos que se reproduzem na água suja.

Khandelwal disse que o governo tem dificuldade em encontrar terrenos para novos depósitos. A vontade política para encontrar uma solução foi enfraquecida porque centenas de milhares de catadores de lixo vivem nas favelas nas imediações.

“Não existe maneira indolor de resolver o problema do lixo", disse Ashutosh Dikshit, diretor executivo do grupo United Residents Joint Action, de Délhi, que defende melhorias nos serviços públicos. “Os políticos não estão dispostos a contrariar ninguém, pois isso significaria um voto para o partido adversário.”

A coleta de todo o lixo em Délhi e a conversão dos lixões em aterros sanitários custaria cerca de US$ 75 milhões, calculou Annepu.

No lixão de Ghazipur, infecções cutâneas cheias de pus, ataques sufocantes de asma e casos de arritmia cardíaca são comuns. Alguns moradores da região perguntaram por que o lixão continua crescendo apesar das promessas do governo de fechá-lo após as mortes no ano passado. “Somos cidadãos de quarta classe", disse Mohammed Ismail, 66 anos, dono de um negócio. “Ninguém dá ouvidos a nós. Morremos feito insetos.”

Num dia recente, caminhões subiam até o alto da pilha de lixo. Abaixo, Faiyaz Khan, dono de um terreno onde produz laticínios, disse que suas terras eram antes uma floresta densa, perfeita para os búfalos.

“A altura da pilha de lixo não para de aumentar, e minha saúde não para de piorar", disse Khan. “Somos pessoas sem formação. Não entendemos como funciona a lei, mas sabemos que esse lixão é ilegal. O que devo fazer? Bater a cabeça contra a parede? Por quanto tempo ainda suportaremos viver nessas condições?”

Informações: O Estadão