Projeto Compostar recolhe 18 toneladas de lixo orgânico por mês no DF

Professor Resíduo
11:00:AM - 02/Aug/2018
Projeto Compostar recolhe 18 toneladas de lixo orgânico por mês no DF
Matheus Bastos/Divulgação

02/08/2018| 11h00

Empresa transforma resíduos em adubo há um ano. Coleta é feita em casas, apartamentos e estabelecimentos comerciais.

Jogou no lixo, fechou o saco plástico, descartou no container e acabou. Para muitos brasilienses, o caminho do lixo termina na porta de casa. O que acontece depois com os plásticos, vidros, papéis, latas e com a matéria orgânica é desconhecido – mas há quem saiba muito bem.

Há cerca de um ano, o engenheiro civil Lucas Moya, de 26 anos, se dedica a reduzir os impactos do descarte inadequado de resíduos orgânicos em Brasília. "A gente vive na capital do país, mora a 15 quilômetros do maior lixão da América Latina [desativado em janeiro de 2018] e não sabe."

Criado por ele, o projeto Compostar recolhe restos alimentares em casas, apartamentos e restaurantes, e transforma tudo isso em adubo por meio do processo que deu nome à iniciativa.

A compostagem consiste no aproveitamento de micro-organismos que se proliferam naturalmente nos alimentos para transformar o lixo orgânico em fertilizante para a terra. O processo completo dura de 4 a 6 meses (entenda abaixo).

O projeto coletou 80 toneladas de resíduos em todo o Distrito Federal e, hoje, conta com quatro funcionários para fazer o trabalho de porta em porta. São 17 estabelecimentos associados (entre restaurantes, bares, espaços coworking e casas de festas), uma escola, 70 apartamentos e 20 casas.

"A gente fecha um ciclo, aproveitando a sobra dos alimentos para gerar novos alimentos. É uma lógica muito mais inteligente do que pensar no lixo como algo que desaparece, que não é mais nosso problema."

A média mensal de coleta, segundo Moya, é de 18 toneladas de orgânicos. Para receber as visitas semanais, é preciso contribuir com o valor mensal de R$ 65 em um financiamento coletivo. Quem participa ganha, todo mês, uma muda de hortaliça ou um saquinho de adubo.

"Se os gestores públicos se atentarem para isso, acredito que em alguns anos podemos ter uma realidade diferente para a gestão de resíduos no Brasil."

Como funciona?
Nas casas e apartamentos, o projeto entrega um balde e uma sacola compostável – à base de biomassa que se decompõe dentro de um mês – e recolhe os resíduos orgânicos toda semana. A média mensal é de 1.140 quilos.

Nos restaurantes, a frequência de coleta é a mesma, mas as sacolinhas não são suficientes. No lugar delas, são distribuídos tonéis com capacidade para 45 litros.

Os estabelecimentos de menor porte descartam, em média, 450 quilos de resíduos orgânicos por mês, segundo Moya. Já os grandes, chegam a acumular até três toneladas.

Nestes casos, o Projeto Compostar surge como uma solução viável para atender à Lei dos Grandes Geradores de Resíduos (nº 5.610/2016). Desde novembro do ano passado, os estabelecimentos que produzem mais de mil litros de lixo por dia são responsáveis pela destinação dos resíduos.

A coleta, o transporte e a destinação final do lixo devem ser feitos pela própria equipe ou por uma empresa contratada e cadastrada pelo Serviço de Limpeza Urbana (SLU).

"Com isso, abriram infinitas empresas que coletam esse lixo e levam pro aterro. Na prática, o custo que era do SLU passou para o comerciante, mas o descarte continuou o mesmo", explicou Lucas Moya.

Compostagem
O ponto final da coleta é o pátio de compostagem, que fica em um terreno compartilhado no Lago Oeste. O projeto divide espaço com um viveiro de hortaliças – de onde saem as mudas distribuídas aos parceiros do Projeto Compostar.

No pátio, ao ar livre, a matéria orgânica é misturada com poda triturada e distribuída em leiras. Para manter a temperatura, a umidade e garantir a circulação de ar, as pilhas de compostagem são cobertas com palha. No interior, o termômetro pode ultrapassar os 70 graus, segundo Moya.

"A atividade microbiana é muito alta e faz a temperatura subir. E é pela temperatura, em cada estágio de decomposição, que se controlam os organismos patógenos."

Durante o processo, os alimentos liberam um líquido – popularmente conhecido como chorume – que é drenado para um repositório. Este mesmo substrato, segundo Lucas Moya, é usado para irrigar as leiras e manter o sistema em funcionamento.

"Se deixar esse líquido, ele vai se acumular no fundo e favorecer o desenvolvimento de bactérias anaeróbias, que impossibilitam a compostagem", explicou. "A compostagem só funciona em ambiente muito certo de umidade, proporção de carbono, nitrogênio e aeração."

Em lixeiras diferentes
Existem três tipo de lixo: reciclável, orgânico e aquele que não pode ser reaproveitado. O primeiro inclui plásticos, papéis, papelão, vidro e até isopor – o DF não faz reciclagem de vidro e apenas uma cooperativa trabalha com isopor.

O lixo orgânico compreende, basicamente, alimentos: frutas, legumes, verduras, grãos e sementes, casca de ovo, borra e filtro de café e saquinho de chá. O Projeto Compostar recolhe até guardanapo e papel toalha.

E o serviço público?
O Serviço de Limpeza Urbana (SLU) informou que não tem dados exatos da quantidade de resíduos orgânicos coletados no DF. O principal motivo, segundo o diretor-adjunto, Paulo Celso dos Reis, é a separação inadequada feita pelos moradores e comerciantes.

Na prática, a maior parte do lixo chamado "doméstico" entra no caminhão da coleta seletiva: misturado com orgânicos, recicláveis e rejeitos. No ano passado, apenas 7,25% do que foi coletado serviu para a compostagem, de acordo com o SLU.

Reis afirma que os resíduos orgânicos coletados em toda a capital não chegam à metade do que poderia ser recolhido se a separação fosse feita de forma correta.

O SLU tem duas Usinas de Tratamento Mecânico Biológico, que funcionam desde a década de 1960 na Asa Sul e em Ceilândia. Lá, o material passa por uma espécie de funil, que separa os recicláveis dos resíduos sólidos. A compostagem ocorre em um pátio impermeabilizado em Ceilândia.

"Existe um preconceito das pessoas com este adubo, porque 'vem do lixo', teria metais pesados e vidro. Mas nós fazemos testes e somos o único do Brasil que entrega composto do lixo com aprovação do Ministério da Agricultura."

Informações: G1