Chile vive transformação cultural para deixar de usar sacolas plásticas

Professor Resíduo
02:30:PM - 02/Aug/2018
Chile vive transformação cultural para deixar de usar sacolas plásticas
AFP/Arquivos

Gaivota segura uma sacola plástica no bico às margens da praia Caleta Portales em Valparaíso, Chile, 17 de julho de 2018

02/08/2018| 14h30

Por lei, as sacolas plásticas estão com os dias contados no Chile, mas exige-se uma mudança cultural para que o comércio e os supermercados deixem de distribuí-las e a população evite reutilizá-las para descartar lixo.

“Eu mesmo me dou um puxão de orelha, temos que contribuir para melhorar nosso meio ambiente”, afirma Marcos Santibáñez, frequentador de um supermercado em Santiago com um carro cheio de produtos dentro de sacolas plásticas.

No Chile, onde apenas 4% dos 17,5 milhões de moradores reciclam o lixo, deixar de usar sacolas plásticas e substituí-las por sacos biodegradáveis, reutilizáveis ou de tecido, é uma verdadeira mudança cultural. Estima-se que os chilenos usem 3,4 bilhões de sacolas plásticas por ano e pelo menos 90% delas terminam em lixões ou no mar.

“A lei nos obriga a uma mudança muito mais cultural. Não há temas a respeito de mudanças de investimento. Mais que pensar em mudar ou investir em outros plásticos, o mundo do plástico acabou”, admite em declarações à AFP Rodrigo Sahr, gerente de Marketing dos supermercados Jumbo e Santa Isabel.

Por mais de 40 anos, os chilenos utilizaram sacolas plásticas para transportar as compras de supermercados e lojas ou para depositar o lixo em suas casas, sem se preocupar com a grave poluição que geram, particularmente nos oceanos. Noventa por cento das aves marinhas consumiram algum tipo de plástico, estimam agências ambientais.

No inverno austral no litoral chileno, com mais de 4.000 km de extensão, há poucas pessoas, mas muito lixo. Em várias praias do centro do país, os rejeitos estão espalhados pela areia, enquanto nas águas geladas do oceano Pacífico, sacolas plásticas podem ser encontradas no fundo do mar e na superfície, onde formam ilhas descomunais.

– Ilhas de plástico no oceano –
“Há ilhas de plástico na costa entre o Chile e o Peru do tamanho do México (dois milhões de quilômetros quadrados)”, diz à AFP Marcela Cubillos, ministra de Meio Ambiente do Chile. “O dano é evidente não só pela quantidade, mas porque (as sacolas) permanecem 400 anos sem se degradar” e só têm uma vida útil de 30 minutos, acrescenta.

Em 2016, um programa estadual de limpeza varreu 218 km de praias em 103 municípios chilenos, coletando 93 toneladas de lixo. Noventa por cento destes resíduos eram plásticos.

No oceano, o plástico – em cuja fabricação se usa petróleo – se degrada em milhões de microfragmentos que são ingeridos por peixes e mariscos e ficam presos em seu organismo; depois, o ser humano os come, enchendo o corpo de perigosos produtos tóxicos.

Diversas espécies que vivem em ecossistemas marinhos são afetadas pela interação com plásticos, seja por ingestão ou por estrangulamento, provocando-lhes a morte, em muitos casos.

– Proibição total –
A mudança não passa só por levar a própria bolsa ao supermercado, mas também por parar de usar as sacolas no lixo, uma prática muito comum no Chile, mas “enormemente inapropriada, porque (as sacolas) se rompem com maior facilidade e não cumprem a função de transferir os resídios aos aterros sanitários”, afirma a ministra Cubillos.

O governo chileno decidiu ampliar a todo o território a proibição de sacolas plásticas nas lojas, que até agora estava restrita a populações costeiras e à turística Patagônia chilena.

A norma aponta a “prescindir” das sacolas, que se tornaram uma dor de cabeça para o país, razão pela qual “todos os chilenos temos que abordar a questão e por isso optamos por uma proibição em nível nacional”, explica Cubillos.

A lei, aprovada pelo Congresso chileno no final de maio, deverá ser promulgada nos próximos dias pelo presidente Sebastián Piñera, uma vez que o Tribunal Constitucional desconsiderou no começo de julho um recurso das empresas produtoras de plásticos.

Os fabricantes de sacolas se queixam de que a lei está provocando perdas econômicas próximas dos 50% de sua receita e que os obrigou a demitir trabalhadores e procurar outros setores para se manter no mercado.

A proibição das sacolas já tinha sido adotada por mais de uma centena de municípios, em sua maioria costeiros, cansados da poluição produzida pelos plásticos.

A partir da promulgação da lei, os supermercados e grandes lojas têm seis meses para deixar de distribuir sacolas a seus clientes, enquanto as chamadas lojas de bairro ou pequenos comércios terão um período de adaptação à norma de dois anos. Quem não cumprir, terá que pagar multas de até 350 dólares, segundo o governo. A revolução cultural está em andamento.

Informações: Isto É