Uso de canudos plásticos começa a ser dispensado por ambulantes e restaurantes

Professor Resíduo
02:30:PM - 06/Aug/2018
Uso de canudos plásticos começa a ser dispensado por ambulantes e restaurantes
Cortesia à Gazetaweb

Consumidores conscientes começam a utilizar canudos de papel ou recicláveis

06/08/2018| 14h30

Projeto de lei na Câmara de Maceió obriga utilização do produto biodegradável

Em breve, canudos biodegradáveis ou os chamados canudos de papel devem substituir os de plástico, que tanto agridem o meio ambiente, sendo um vilão para animais marinhos, como as tartarugas. Porém, tudo vai depender da aprovação de um projeto de lei municipal que obriga estabelecimentos comerciais e ambulantes a forneceram o novo material para a clientela. Alguns empresários, no entanto, anteciparam-se, abolindo o velho e acostumando o consumidor a beber o seu coquetel sem canudo. Uma autêntica reconciliação com a natureza.

Com um olhar sensível há 12 anos, o proprietário do restaurante e pizzaria Santorégano afirma que é preciso trabalhar a questão ambiental em todos os seus aspectos, desde a otimização do espaço até a reciclagem do lixo que se acumula de forma diária e em grande quantidade. Há quase 30 dias, Almir Ribeiro abandonou os canudos de plástico.

Na visão do empresário, a medida implantada não visou - em primeiro lugar - à redução de custos, mas sim, à promoção da consciência ambiental. "Isso vem de uma essência nossa, pois o próprio ambiente já traduz o que queremos, isto é, plantas ao redor e móveis rústicos. Na verdade, é um modo de vida que, inclusive, foi abraçado pelos próprios clientes", comentou Almir.

Ribeiro fez questão de mencionar que o canudo de papel é novidade em Alagoas, mas já é conhecido em outros estados e países, a exemplo do México, para onde viajou há três anos e conheceu um restaurante que usava o canudo de papel, conhecido por lá como "popote". Desta forma, ele e a esposa maturaram a ideia e decidiram deixar de lado o material. E, quando questionado se iria adotar o novo canudo, ele pensou um pouco e falou: "esta não é nossa intenção também, porque vamos produzir lixo".

"As pessoas vão perceber que não precisamos de canudo de nenhuma espécie, porque é mais uma invenção do ser humano e mais uma contribuição para que aumentemos a quantidade de lixo no Oceano Pacífico, uma ilha de dejetos duas vezes maior que a França. Podemos deixar muita coisa supérflua de lado, e a despesa também, porque, na última cotação que fizemos, o canudo de papel saiu a quarenta centavos", salientou o proprietário.

Portanto, não existe Plano B para o empresário. A intenção é mudar a cultura de usar os canudinhos, bebendo no próprio copo, que, diga-se de passagem, tem caráter ambiental. Trata-se de recipientes de vidro de conserva reaproveitados e uma colher de pau.

"Jogávamos fora quase três mil canudos por mês, uma degradação do meio ambiente e o peso na consciência. Para nós e os clientes, a mudança tem sido boa. Toda essa questão nossa é baseada em estilo de vida, faz parte de nosso cotidiano, e tirar um canudo do meio natural é nossa contribuição. Levo em conta que é uma identidade própria", reforçou Almir.

LEGISLATIVO
O vereador Silvânio Barbosa é autor do Projeto de Lei nº 82/2018, que obriga restaurantes, bares, lanchonetes, barracas de praia, ambulantes e similares autorizados pela Prefeitura a usarem e fornecerem canudos de papel biodegradável e/ou reciclável individual e hermeticamente embalados com material semelhante. Quem descumprir a medida pode pagar uma multa de R$  3 mil e, em caso de reincidência, multa de R$ 6 mil.

Conforme o vereador, tudo o que não for biodegradável não consegue ser decomposto de maneira natural. O uso de um canudo por dia, durante 10 anos, gera a destinação de 3.650 canudos plásticos para os aterros.

"Estes canudos plásticos são terríveis para o nosso ambiente, pois, pelo fato de não serem absorvidos pela natureza, ocorrem terríveis situações como os plásticos nos oceanos que, devido a correntes marítimas, chegam a vagar pelo planeta inteiro e muitos animais aquáticos morrem ao ingerir tais materiais", explicou o vereador.

De acordo com Silvânio, não se trata apenas de degradação do meio ambiente, mas sim, à própria saúde do ser humano, visto que os canudos plásticos contêm Bisfenol A (BPA), um produto químico empregado que imita a atividade de hormônios, como o estrógeno no corpo, o que pode levar a distúrbios reprodutivos, câncer de mama e de próstata, diabetes, doenças cardíacas e outros problemas.

O parlamentar também explica que o termo "biodegradável" é destinado a materiais de decomposição natural, com o apoio de bactérias e fungos. "Biodegradável é tudo o que é elaborado a partir de plantas e animais. Portanto, o uso de itens reutilizáveis e a reciclagem sempre que possível podem ajudar a reduzir drasticamente a quantidade de lixo".

Silvânio Barbosa, por sua vez, faz uma ressalva quanto aos estabelecimentos que não aderirem ao canudo de papel. "Só sofrerão a penalidade aqueles que insistirem em usar os de plástico. Quem optar por não usar o de papel e abolir o outro não sofrerá sanção alguma".
No momento, o projeto se encontra na Comissão de Justiça e, depois, seguirá para votação no plenário.

MCDONALD´S
Em mais uma iniciativa em prol do meio ambiente, a Arcos Dorados, maior franquia independente do McDonald's no mundo, anunciou, no início da semana, que entregará canudos de plástico aos clientes somente mediante solicitação. Essa prática será implementada primeiro no Brasil e, nos próximos meses, se estenderá aos demais países da América Latina e Caribe em que a franqueada opera.

"Como líderes de nosso segmento, estamos, a todo o momento, buscando maneiras de usar nossa escala para o bem da sociedade e do meio ambiente. Isso é parte dos novos objetivos globais Scale for Good do McDonald's, e nos permite contribuir de maneira efetiva para a mudança de cultura e comportamento da cadeia de suprimentos e do público em geral, para que todos possam viver em um planeta melhor", afirmou Paulo Camargo, Presidente da divisão Brasil da Arcos Dorados.

A decisão de parar de entregar canudos de maneira proativa para os refrigerantes, chás e sucos dentro de todos os restaurantes do país apoia o compromisso do McDonald's de melhorar de maneira contínua as suas embalagens. A empresa, inclusive, opera com metas globais para comprar 100% das embalagens para o consumidor oriundas de fontes renováveis, recicladas ou certificadas até 2025, para todos os seus restaurantes.

O dono da lanchonete Careca afirma concordar com o projeto de lei, tendo em vista a questão ambiental. Em sua visão, a mudança não será um desafio, uma vez que acredita em uma recepção positiva por parte dos clientes.

"É uma mudança de hábito, mas que será bem aceita pela clientela. Precisamos nos voltar para o meio ambiente", disse o empresário, que se intitula apenas por "Careca".

OUTRAS ALTERNATIVAS
A consciência ambiental toma conta dos próprios clientes, pelo menos, é o que se observa com a instrutora de mergulho Fernanda Paiva, que comprou um canudo de inox há três meses. Ela leva um em uma bolsa e outro em uma mochila.

"Passei a usar por conta de ver tanto plástico, principalmente, canudos em nossas praias. O volume de animais marinhos mortos por plástico vem aumentando muito e, por isso, resolvi mudar alguns hábitos na minha vida. Antes de usar o de inox, eu tinha tentado parar de usar canudos, mas percebi que ficava difícil em algumas situações, como tomar água de coco", comentou Fernanda.

A instrutora fez um alerta às pessoas que estranham essa prática ao passo que provocou a seguinte reflexão: "Pense que você usa o canudo por cinco minutos e ele fica na natureza por quinhentos anos. Espero que um dia seja estranho que uma pessoa use o de plástico".

E a consciência dela não fica restrita apenas ao canudo. Fernanda não usa mais as sacolas plásticas de supermercado para colocar produtos, pois recorre a caixas. "Hoje, quando vou ao supermercado, analiso a embalagem para comprar o produto".

Quem também esqueceu o canudo de plástico foi a estudante de Design Lis Sarmento, que adquiriu o produto de inox em junho deste ano. Segundo a acadêmica, um dos grandes motivos da mudança foi quando viu uma ação de coleta de lixo na praia.

"O quanto de lixo produzimos diariamente e o quanto isso afeta o meio em que vivemos, principalmente para os animais que vivem no mar, que, muitas vezes, chegam a morrer asfixiados por resíduos que não damos valor e jogamos fora", ressaltou Lis, falando que guarda o canudo em uma bolsa de pano, junto com uma escova para limpá-lo. "Encorajo a família e os amigos a mudarem os hábitos e compartilho as lojas online que vendem o produto".

Conforme a bióloga Bruna Teixeira, do Instituto Biota, que realiza trabalhos de conservação da vida marinha, apesar de não haver registros de morte de tartarugas marinhas em Alagoas por conta de canudos plásticos, ela salienta que tais resíduos podem gerar danos no trato intestinal, acarretando problemas mais sistêmicos, inflamatórios, principalmente em indivíduos juvenis.

A bióloga comentou ser adepta ao projeto de lei municipal, fazendo a ressalva para a criação de um plano de direcionamento de resíduos para as praias. "Se isso, de fato, fosse pensado enquanto política pública, com certeza, teríamos uma redução significativa nos descartes, porque, de qualquer forma há uma interferência quando pensamos no canudo de papel, pois tem uma origem vegetal e vai precisar cortar a árvore para fazer o papel. É uma atitude sustentável, mas teríamos uma consciência mais positiva se houvesse essa política pública da destinação do lixo".

Segundo o gerente de Educação Ambiental do Instituto do Meio Ambiente (IMA), Pedro Normande, as pesquisas mostram que a produção do canudo de plástico já chega a 4% de todo o lixo plástico produzido no mundo.

"Está presente nos mais diversos ambientes e nas praias. Evitar o consumo dos canudos é importante e, caso sua utilização seja inevitável, se faz necessária a adoção de canudos reutilizáveis ou recicláveis. Existem algumas opções no mercado que já são mais acessíveis, como os canudos de papel, de silicone, de aço inox ou bambu. Quanto mais a população aderir aos canudos reutilizáveis, os preços se tornarão mais acessíveis", disse o gerente.

A assessoria de comunicação do IMA diz que a fiscalização, caso o projeto de lei seja aprovado na Câmara, deve ficar sob a responsabilidade da Secretaria Municipal de Proteção ao Meio Ambiente (Sempma), levando em conta que a matéria é de ordem municipal.

Informações: https://gazetaweb.globo.com