Opinião: banir canudinhos alivia consciência sem resolver poluição dos oceanos

Professor Resíduo
02:30:PM - 08/Aug/2018
Opinião: banir canudinhos alivia consciência sem resolver poluição dos oceanos
Joseph Eid/AFP

Garrafas plasticas em uma praia

08/08/2018| 14h30

Por Marcelo Leite - Jornalista especializado em ciência e ambiente, autor de “Ciência - Use com Cuidado”.

Gisele que nos desculpe, mas modismos ecochiques não vão salvar o planeta

A hipocrisia pseudoambientalista não conhece limites. Virou moda demonizar os canudinhos de plástico, seguindo o exemplo virtuoso de Gisele Bündchen, que a revista Vogue promoveu a mãe da Terra para a alegria de ONGs brasileiras em busca de celebridades para abraçar suas causas.

Nada a favor dos canudinhos, que fique bem claro. Seria melhor que essas próteses da fase oral não existissem para engrossar a avalanche de plásticos. Mas estigmatizá-los como inimigos planetários nº 1? Tenha paciência.

A santimônia plastificada decolou com o vídeo de 2015 em que uma tartaruga marinha aparece com o cilindro encalacrado na narina. São oito minutos para extrair o corpo estranho. O bicho sangra, abre a boca como se gritasse. Um verdadeiro horror.

Nascia ali um símbolo de fácil assimilação sentimental para a poluição dos oceanos com plásticos, um problema real. Estima-se que, a cada ano, 320 bilhões de quilos desse material sejam produzidos e descartados no ambiente.

Uma pequena parte disso vai parar no mar, talvez 8 bilhões de quilos. Outros 32 bilhões se acumulam nas praias, mangues e costões.

Ficaram famosas as imagens do acúmulo de detritos na grande faixa de lixo do Pacífico (GPGP, na abreviação em inglês de Great Pacific Garbage Patch), entre a Califórnia e o Havaí. 

Estudo de março na revista Scientific Reports, do mesmo grupo da Nature, calculou que 80 milhões de quilos flutuam por ali, numa área de 1,6 milhão de km2 (equivalente a cerca de um quinto do território brasileiro).

Muita gente acredita que os canudos formam parte considerável desse continente de detritos. Afinal, estima-se que só nos Estados Unidos 500 milhões de tubinhos sejam utilizados a cada dia (poucos sabem que o cálculo foi feito por um garoto de nove anos). Mas não é o caso.

Para começo de conversa, 40% dos plásticos não boiam no oceano, afundam. E os canudos quando muito representariam 0,03% do total desses resíduos que chegam ao mar.

Na realidade, 46% do lixo plástico em ambiente marinho são compostos por redes de pesca e outros implementos da indústria pesqueira, calcularam os autores do artigo na Scientific Reports. Pense nisso quando abrir sua próxima lata de atum.

Se for para expiar culpa, é melhor renunciar ao hambúrguer, além do canudinho do milk-shake. Carne bovina é um problema infinitamente maior para o planeta do que um pedaço de plástico.

A ameaça ambiental mais premente está na mudança do clima amplificada pelo aquecimento global. Seus efeitos estão por toda parte-dos incêndios na Califórnia, na Grécia e na Escandinávia às ressacas turbinadas que estão comendo a Ponta da Praia em Santos .

A pecuária responde sozinha por quase 15% das emissões globais de gases que agravam o efeito estufa. E essa participação tende a piorar, sob o rápido desenvolvimento socioeconômico da China.

Nas últimas três décadas, os chineses ampliaram o consumo de carne de 15 para 70 kg/pessoa/ano. 

Isso dá 28% do total mundial, o dobro do que se vende nos Estados Unidos, mas há que levar em conta o fato de a ingestão per capita ainda ser a metade da prevalente entre americanos.

Nem mesmo se você virar vegano vai fazer diferença para salvar o mundo. Precisaria antes combinar com 1,4 bilhão de chineses que, enfim, vão poder comer mais carne.

Informações: Folha de SP