Gestão de lixo: revolução 4.0 e criatividade empurram sociedade para um modelo circular

Professor Resíduo
10:30:AM - 07/Sep/2018
Gestão de lixo: revolução 4.0 e criatividade empurram sociedade para um modelo circular
https://economia.estadao.com.br

07/09/2018| 10h30

Em 2016, mais de 29 milhões de toneladas de lixo urbano foram parar em lixões irregulares ou aterros controlados – locais que não possuem medidas seguras para impedir a poluição e contaminação, segundo a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (ABRELPE). Além da grande geração de lixo, o índice de reciclagem ainda é muito baixo e se encontra estagnado há muitos anos. Segundo o Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre), o levantamento de 2016 apontava que apenas 31 milhões de brasileiros (15% da população) tinha acesso a programas municipais de coleta seletiva. A aprovação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) em 2010 tentou resolver alguns desses desafios. No entanto, mesmo quando a lei foi implementada em 2014, poucas coisas mudaram de fato quanto ao lixo.

O que é preciso para mudar a gestão de resíduos sólidos no Brasil? Talvez a tecnologia seja um dos expoentes dessa mudança. Os efeitos da 4ª Revolução Industrial na gestão de resíduos foi tema de um debate da Virada Sustentável em São Paulo, no final do mês de agosto. Um dos participantes, Carlos Silva Filho, Presidente da ABRELPE, trabalha no setor há 20 anos e recorda que, nos últimos três, houve uma mudança de mentalidade importante.

“As pessoas estão percebendo que podemos fazer mais. Estamos em uma transição em que a gestão de resíduo deixa de ser gestão de lixo a passa a ser gestão de recursos. É pensar aberto: como que hoje a maior rede de hospedagem do mundo é Airbnb? Ou que existam grandes empresas de transporte urbano como a Uber e Cabify e que não são proprietárias de frota? São esses conceitos que precisamos trazer para a gestão de resíduos. É a criatividade que precisamos despertar, não só em cada um, mas despertar no próprio governo, em parceria com iniciativa privada, para oferecer esses tipos de solução”, relata.

A mentalidade empreendedora pode ser encontrada em alguns cases. Sabrina Gimenes de Andrade, da Coordenação Geral de Resíduos Sólidos Ministério do Meio Ambiente, lembrou, durante o debate, de um case emblemático: a Ecozinha. No começo do ano, o Distrito Federal aprovou uma lei que transfere para estabelecimentos comerciais, órgãos públicos, terminais rodoviários e aeroportuários a responsabilidade da destinação dos resíduos produzidos. Mesmo pequenos restaurantes e bares poderiam ser considerados grandes geradores, de acordo com a lei.

Alguns restaurantes então criaram uma logística compartilhada – que serve inclusive para resíduos orgânicos. O modelo instalou caçambas e coletores para a separação do lixo reciclável em cada um dos restaurantes, que são todos recolhidos pelo Sistema de Limpeza Urbana. No caso do vidro, a Ecozinha construiu uma parceria com a ONG Green Ambiental para transportar o material até usinas de reciclagem em São Paulo – isso porque o DF não possui nenhuma instalação para o trato do material.

No caso do lixo orgânico, os estabelecimentos construíram um projeto de compostagem, alugando um pátio em que instalam composteiras e destinam ali os restos de alimento. O adubo gerado será destinado a agricultores da região: no fim, o lixo ajuda na produção da comida que será comprada e usada como insumo nos restaurantes.

Como a inovação e tecnologia estão ajudando nesse processo
A International Solid Waste Association (ISWA) apontou em uma pesquisa no ano passado que 97% dos respondentes consideravam que as indústrias relacionadas a gestão de resíduos seriam afetadas pela quarta revolução industrial. A expectativa dos entrevistados é que inovações como chatbots sejam usados para auxiliarem pessoas na informação sobre geração de lixo e reciclagem, por exemplo. Além disso, mais de 50% acreditam que robôs automatizarão alguns serviços como a direção dos caminhões de lixo e outros processos que hoje são feitos de maneira mecânica. A maioria espera que, de alguma forma, a tecnologia ajudará a economia a ser mais circular.

Davi Bomtempo, Gerente Executivo de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Confederação Nacional da Indústria (CNI), é um dos que concorda com essa visão. Ele lembra que os problemas da gestão de resíduos devem ser pensados desde o início da cadeia.

“Começamos a perceber que com Internet das Coisas, a parte dos sensores, podemos acompanhar o material desde sua composição até sua destinação, uma abordagem inovadora para a logística reversa, garantindo com que aquele resíduo seja destinado adequadamente. Outra inovação é a impressão 3D. Dado que recursos naturais estão escassos, é útil para produzir menos e com mais eficiência. A gestão de resíduos começa no início da cadeia, usando menos recursos para fazer seu produto. Economia circular não é só reciclagem: é já produzir de maneira modular para, na hora que tiver problema, é só fazer manutenção, trocar peça, não precisa de um novo produto”, explica.

Informações: https://economia.estadao.com.br