Cidades baianas buscam alternativas para o lixo urbano

Professor Resíduo
08:30:AM - 01/Oct/2018
Cidades baianas buscam alternativas para o lixo urbano
(Bruno Concha/Divulgação)

Em Salvador, 78% da coleta de lixo é realizada diariamente e o restante é feita em dias alternados

01/10/2018| 08h30

Salvador e Camaçari têm melhores índices de destinação do lixo segundo o Índice de Sustentabilidade da Limpeza Urbana (ISLU)

Desafio no mundo, o lixo ainda é um problema grave no Nordeste. Apesar dos resultados pontuarem as dificuldades da região, os municípios baianos Salvador e Camaçari estão entre as cidades nordestinas com melhores resultados quando se fala na destinação dos resíduos sólidos. Basta salientar que enquanto a Bahia ficou com nota 0,525, Salvador teve 0,678 e Camaçari obteve 0,680.

Isso foi o que mostrou o Índice de Sustentabilidade da Limpeza Urbana (ISLU), uma pesquisa desenvolvida pelo Sindicato Nacional das Empresas de Limpeza Urbana (Selurb) em parceria com a consultoria PwC (PricewaterhouseCoopers). O estudo mede a adesão dos municípios brasileiros às metas da legislação e a avaliação é feita a partir do desempenho em quatro dimensões: engajamento, recuperação de recursos coletados, sustentabilidade financeira e impacto ambiental.

De acordo com o especialista em sustentabilidade e resíduos sólidos e um dos responsáveis pelo estudo Carlos Rossin, a explicação para os bons índices nas cidades baianas pode ser justificada pelo fato de que esses municípios investiram em coleta e a proximidade da indústria que, atualmente, tem sido uma das maiores recicladoras de resíduos sólidos. O especialista destaca que a gestão de resíduos sólidos depende da capacidade de administrar o sistema em escala econômica, garantindo uma atividade logística que justifique o alto custeio dessa atividade. “Oito anos após a implantação da Política Nacional de Resíduos Sólidos, cerca de 88,6% dos municípios da região nordeste destinam os resíduos incorretamente em lixões, 0,50% dos materiais descartados são reaproveitados, 34% dos domicílios não contam com coleta de lixo e 95,1% dos municípios ainda não instituíram uma fonte de arrecadação específica para custear os serviços”, completa, ressaltando que assim como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU, o ISLU varia entre 0 (zero - baixo desenvolvimento) e 1 (um - alto desenvolvimento) e analisa os dados oficiais mais recentes disponibilizados pelos próprios municípios no Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS).

“O desempenho das cidades é classificado entre ‘muito alto’ (acima de 0,8), ‘alto’ (acima de 0,7), ‘médio’ (acima de 0,6), ‘baixo’ (acima de 0,5) e ‘muito baixo’ (abaixo de 0,5)”.

Rossin explica que, nos primeiros nos que o levantamento foi realizado, as pequenas cidades do sul do Brasil dispararam na frente de alguns centros desenvolvidos. A razão para os bons resultados estava na união e na divisão dos custos de manutenção da estrutura do descarte de lixo. “O Nordeste precisa aprender com outras experiências, como a dos Estados Unidos que, apesar de também contar com uma dimensão continental como o Brasil, investiram na construção de aterros regionais, reduzindo custos e garantindo a eficiência do serviço”, esclarece.

Outro aspecto destacado pelo especialista diz respeito à criação de incentivos financeiros que possibilitem o indivíduo comum a se responsabilizar pelo próprio lixo, gerando menos resíduos. “É preciso envolver a sociedade nessa questão, pois não adianta apenas montar uma estrutura administrativa eficiente, a população precisa se envolver e ser incentivada a gerar menos lixo”, ressaltando a importância de criar incentivos fiscais.

Problema de cada um
Os resultados da capital baiana foram alcançados depois que o município investiu na terceirização de alguns serviços, possibilitando que 51% do capital fiquem com o município. Atualmente, a coleta é feita através dos 18 núcleos de limpeza que compreendem os bairros, as três ilhas que integram a capital e quatro gerências de atuação. Além da coleta domiciliar, o município também investe em equipes especiais que realizam roçagem, limpeza das praias, coleta seletiva, apoio às cooperativas e lavagem de logradouros.

De acordo com o atual chefe de gabinete da Prefeitura e ex-presidente da Empresa de Limpeza Urbana de Salvador (Limpurb) Kaio Moraes, até o próximo ano, a cidade apresentará alguns planos para ampliar a sustentabilidade do descarte do lixo, ampliando as parcerias que possibilitam descontos em contas de consumo e nas parcerias com as cooperativas. “Atualmente, mantemos uma parceria com a Coelba, onde o consumidor recebe descontos ao levar materiais para reciclagem”, esclarece, lembrando que a ideia é estabelecer outros convênios que permitam uma redução na geração do lixo doméstico. 

“Temos, além do desafio de conviver com uma estrutura geográfica acidentada e locais muito adensados, a falta de uma cultura de pertencimento que faz com que as pessoas se preocupem apenas com o lixo dentro de casa e não com o que é colocado na rua”, diz Moraes, ressaltando a importância de uma educação sanitária que possibilite a mudança de cultura em relação à produção e descarte do lixo.

Hoje, Salvador tem o primeiro aterro da América Latina envelopado e controlado, podendo ser usado até 2024. Segundo Moraes, 78% da coleta é diária e o restante é feita de forma alternada por veículos diversos de modo a atingir o máximo de domicílios. “O ideal seria que conseguíssemos ter 78% da coleta alternada e o restante feita diariamente, porque o custo seria reduzido, infelizmente, há um descarte inadequado feito em horários onde a coleta não deveria ser feita”, completa.

Vizinha eficiente
O município vizinho realiza a limpeza urbana por meio de um contrato com o Consórcio Camaçari Limpa, cujo contrato mantido com a Prefeitura é gerenciado pela Secretaria de Serviços Públicos (SESP). Desde o ano passado, o consórcio conseguiu alcançar metas como a coleta junto a 100% da população urbana e 80% da população rural, representando mais de 98% da população total do município. Na orla, que tem 40 km de extensão iniciando em Busca Vida e finalizando em Itacimirim, passando por Jauá, Arembepe, Barra de Jacuípe e Guarajuba, a limpeza é feita manualmente e também é mecanizada. Foram instaladas 20 ECOPEVs, pontos de entrega voluntária para materiais recicláveis, onde a população entrega os materiais que podem ser reutilizados.

Outro aspecto destacado pela gestão do município diz respeito ao sistema de beneficiamento de resíduos da construção civil para reutilização de parte desse material. “A Prefeitura já se beneficia dessa atividade utilizando este subproduto na pavimentação de ruas da Cidade. Esse equipamento fortalece o conceito da logística reversa no tratamento de resíduos que é um dos pilares da política nacional de resíduos sólidos”, afirma o secretário Armando Mansur.

Informações: https://www.correio24horas.com.br