Lixo vindo de países da América do Norte, da África, da Ásia contamina praias do Ceará

Professor Resíduo
09:15:AM - 05/Jun/2019
Lixo vindo de países da América do Norte, da África, da Ásia contamina praias do Ceará
Foto: Natinho Rodrigues

Aterro da Praia de Iracema é um dos pontos mais poluídos da cidade; mergulhadores voluntários transformam hobby em missão ambiental em Fortaleza

05/06/2019| 09h15

Mais de 600kg de lixo são retirados de parte do Rio Cocó todos os meses. Hoje, Dia Mundial do Meio Ambiente, outro dado alerta para a urgência da educação ambiental: 10 mil tipos de resíduos diferentes foram encontrados no Litoral de Fortaleza, em pesquisa do Instituto Verdeluz.

"Encontramos muito lixo internacional aqui em Fortaleza, principalmente na Sabiaguaba, o que mostra que esse problema não é local, mas global. Já recolhemos embalagens da Namíbia, Califórnia, Cingapura, Taiwan e Malásia", relata a advogada do Instituto Verdeluz explicando que o principal intuito do projeto é coletar dados para entender a problemática e pensar soluções.

No ano passado, o Verdeluz, por meio do Grupo de Resíduos Urbanos (GRU), retirou mais de 90kg de resíduos do litoral. Em 2019, o projeto Fortaleza pelas Dunas já recolheu, em três coletas, quase duas toneladas de lixo das Dunas do Cocó. "Falta as pessoas perceberem o impacto que estão causando. Pensam: 'ah, é só uma bituca', 'é só um canudo'. E se fosse isso dentro do seu estômago? É isso que a fauna marinha sofre. Se as pessoas tivessem noção do dano, veriam que cada ação importa", alerta a advogada.

O lixo que chega ao mar gera um problema ainda maior: a mortandade de animais marinhos. A mergulhadora e doutora em Ciências Marinhas alerta para o impacto. "Os animais não foram preparados para digerir plástico. Imagine você com o estômago muito cheio, mas de uma coisa que não te nutre, e não consegue se alimentar? Não temos estatísticas para o litoral do Ceará, mas no mundo, 100 mil animais morrem por mês em consequência do lixo", lamenta a especialista.

De acordo com um mergulhador do projeto Mar do Ceará, a quantidade de lixo retirada das águas salgadas "pode não ser tão expressiva se comparada ao que é recolhido na orla", mas é alarmante. "Embaixo d'água é mais difícil se movimentar, a visibilidade é diferente. Mas vemos o que poucos veem: o lixo que está submerso. Encontramos mais na orla e a oeste de Fortaleza. No Aterro, sempre vai ter lixo quando mergulhamos. Na Taíba e no Pecém, encontramos praias imundas do lixo que vem do porto e da Capital", relata o mergulhador.

Os resíduos sólidos produzidos pelo ser humano, aliás, chegam aonde nem ele consegue. Um submarino americano alcançou a maior profundidade da história e encontrou? lixo. E nem é preciso ir tão longe assim. Segundo a bióloga do Instituto Verdeluz encontrar resíduos no Parque Estadual Marinho do Estado, a cerca de 18 km da costa, é comum. A unidade de conservação ambiental submersa é de responsabilidade da Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema).

"Muitos ainda têm a ideia de que o oceano é capaz de absorver todo o lixo, e ele não é. É alarmante: não se fala mais em medidas para depois, e sim para agora. Se não mudarmos a forma de lidar, não sobra nada para as próximas gerações", alerta a bióloga.