Catadores nordestinos se arriscam sem proteção em lixões

Professor Resíduo
09:00:AM - 20/Aug/2019
Catadores nordestinos se arriscam sem proteção em lixões
FOTO: THIAGO GADELHA

20/08/2019| 09h00

Dezenas de catadores do Lixão de Juazeiro do Norte ainda dividem espaço em locais de descarte de lixo comum. Consórcios prometem substituir lixões por aterros sanitários.

A condição meteorológica não é determinante para definir quando os catadores do Lixão de Juazeiro do Norte, no Cariri cearense, vão trabalhar. Segundo os trabalhadores, cada dia parado representa menos renda.

Catadores dividem espaço com dezenas de montanhas de resíduos em busca de algo que possa ser trocado por dinheiro.

Ao separar todo esse lixo sem nenhuma ferramenta de segurança, como o Equipamento de Proteção Individual, o chamado EPI, máscaras faciais, luvas, respiradores, macacões e calçados fechados, que são de uso obrigatório por lei em atividades de risco, os quase 100 trabalhadores expõem a saúde aos mais diversos riscos.

O mesmo cenário se repete em vários outros lixões do interior cearense, como são os casos de Caririaçu - cidade vizinha a Juazeiro do Norte - e Iguatu, distante quase 155 km. "Apesar de ser ilegal e extremamente nocivo à saúde dessas pessoas, não há o cumprimento da lei. Os EPIs são de uso obrigatório, mas, na prática, ninguém usa. E o motivo é muito claro: eles não são distribuídos. Se os gestores dos municípios não fornecem, os catadores obviamente ficarão sem acesso", alerta um biólogo e ativista.

Na prática, é exatamente isso que acontece em diversos lixões do Estado. Em Caririaçu, catadores dizem ter perdido as contas de quantas vezes já se feriram catando os dejetos.

Em Iguatu, principal cidade da região Centro-Sul do Estado e que produz 8 toneladas de lixo doméstico por mês, a mesma irregularidade se estende aos quase 50 catadores - em sua maioria, mulheres. A presidente da Associação de Catadores de Materiais Recicláveis de Iguatu confirma que "ninguém tem equipamento de proteção". Apesar de reconhecer os riscos, ela conta que os EPIs "nunca foram fornecidos".

A Prefeitura de Iguatu contesta a informação e afirma "ter entregado kits, em outubro de 2018, à Associação, contendo botas, calças, camisas e luvas". O secretário de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano de Iguatu acrescentou ainda que uma "nova remessa de EPIs será entregue no próximo mês, quando daremos início a um projeto piloto de coleta seletiva". Já as prefeituras de Juazeiro do Norte e Caririaçu não responderam aos questionamentos.

Médicos alertam para os malefícios de exercer essa atividade sem a proteção adequada. Dentre as morbidades mais frequentes, advindas do contato humano direto com o lixo, profissionais apontam as doenças diarreicas e aquelas transmitidas por vetores biológicos e mecânicos.

Encarar diariamente esse ambiente insalubre, estando expostos aos mais diversos riscos e tendo, ainda, que conviver, lado a lado, com a presença de urubus é, segundo eles, uma necessidade e não uma opção.

A 160 km de distância do lixão de Juazeiro, estão outros 50 catadores que ganham a vida no lixão de Iguatu, com renda mensal nesta mesma faixa.

No início do ano, catadoras de Iguatu receberam a notícia de que o local onde elas trabalham iria acabar.

Sete municípios do Centro-Sul cearense formalizaram a criação de um consórcio de gestão integrada de resíduos sólidos, sob a articulação da Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema). O consórcio deve atender aos requisitos da Política Nacional e Estadual de Resíduos Sólidos para preservação do meio ambiente. O município de Iguatu foi escolhido para sediar a gestão deste consórcio, que prevê a construção de centrais municipais de resíduos em cada município e 'ecopontos' para entrega voluntária.

As primeiras atividades do Consórcio começam a ser postas em prática no próximo mês, com a implantação de coletas seletivas em dois bairros do Município (Cajazeiras e Chapadinha). A previsão é de redução de cerca de 70% de todo o material que vai para o lixão. Os 30% restantes configuram-se apenas em rejeitos sem valor comercial. Com essa redução, a expectativa é que os lixões das cidades consorciadas (Iguatu, Acopiara, Catarina, Cariús, Quixelô, Jucás e Saboeiro) sejam fechados total e definitivamente.

Em Iguatu, a previsão é de pôr fim ao local já no próximo ano. Com a implantação do Consórcio, todos os catadores que hoje estão registrados passarão a trabalhar nos ecopontos e nas Centrais de Resíduos.

Por lei, todos os lixões em território nacional eram para ter sido substituídos por aterros sanitários desde 2014. Foi este o prazo estabelecido pela lei de Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), de 2010.