Angola desperdiça um negócio sustentável: o lixo

Professor Resíduo
11:30:AM - 09/Sep/2019
Angola desperdiça um negócio sustentável: o lixo
Fotografia: DR

09/09/2019| 11h30

A reciclagem do lixo é o quarto maior negócio do mundo, mesmo assim, continua a ser desperdiçado em Angola, tanto pela iniciativa pública, quanto pelos privados, que devem gerar mais formas de se fazer dinheiro e criar outras oportunidades de emprego.

Para mostrar esse valor aos angolanos, a Embaixada de Cuba em Angola reuniu, há alguns dias, em Luanda, no Centro de Imprensa Aníbal de Melo, especialistas dos variados setores econômicos do país, entre eles biólogos, que falou sobre os resíduos e sua gestão, enquanto tema de alta prioridade a nível mundial e uma necessidade imperiosa para o desenvolvimento e para a sustentabilidade dos ecossistemas.

Um dos biólogos, ao tratar do tema “Reciclagem, valor econômico, ideias e oportunidades”, trouxe para a percepção nacional angolana questões sobre a própria reciclagem, a reutilização, os indicadores dos países que mais reciclam e os benefícios, a reciclagem como empreendedorismo, a experiência de Cuba e ideias de negócios com reciclagem e as oportunidades existentes no país.

Segundo um biólogo, a reciclagem tem de ser vista, prioritariamente, como um elemento de controle da contaminação ambiental, já que dados do Banco Mundial mostram que, só em 2012, a população urbana produziu 1.300 milhões de toneladas de resíduos sólidos e espera-se que essa cifra ascenda a 2.200 milhões em 2025.

A cada ano, perdem-se mais de 2.120 mil milhões de toneladas de resíduos, quantidades que, se colocadas em caminhões, dariam a volta ao mundo 24 vezes. De acordo com um biólogo, atualmente, nas grandes cidades, já começou a se verificar falta de espaço destinado a depósitos de lixo e de outros dejetos produzidos pela sociedade.

Para biólogos, existe em Angola uma escassez de investimentos na indústria de reciclagem. Segundo eles, o país deve olhar para a reciclagem como um bom espaço de empreendedorismo, sobre o qual há uma forte oportunidade de negócio bastante sustentável.

Essa oportunidade de criação de postos de trabalho pode ser experimentada com a abertura de uma distribuidora de lixo reciclável, com a prática de artesanato com material reciclável para se ganhar dinheiro, com a montagem de uma empresa de reciclagem (exemplo de reciclagem de vidro) ou de um “disk caçamba” (aproveitamento de entulhos ou lixo gerado pela construção civil).

Para um novo negócio, biólogos apontam a gestão de resíduos industriais, a reutilização de pneus, a compostagem ou tratamento de lixo orgânico e a reciclagem de óleo usado na cozinha para a produção de sabão.

Os biólogos dizem que para se alcançar o empreendedorismo nas questões de reciclagem, necessita-se de uma educação pública sólida sobre as questões ambientais e investimentos em programas de incentivo à reciclagem.

Enfatizam o reforço das leis sobre gestão e controle de lixo e, também, políticas que permitam que aqueles que geram resíduos paguem pelos volumes produzidos, além da componente participação e responsabilização compartilhada das instituições educacionais e das empresas na gestão de políticas de reciclagem e de educação ambiental.

De acordo com a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), os países que mais reciclam resíduos no mundo são Alemanha, Coreia do Sul, Austrália, Eslovênia, Bélgica, Suíça, Holanda, Suécia, Luxemburgo, Islândia, Dinamarca e o Reino Unido. Sozinha, a Alemanha recicla 65% dos resíduos sólidos urbanos, enquanto os demais países reciclam 90% dos resíduos do setor de construção civil.

A Suécia é tão eficiente na reciclagem, que quase 100% do lixo que produz é reaproveitado, ao ponto de importar lixo. Estados Unidos, China, Índia e Brasil são os maiores produtores de lixo plástico no mundo, em torno de 11 milhões de toneladas. Na Finlândia, são recicladas nove de cada dez garrafas plásticas usadas e quase 100 por cento das garrafas de vidro achadas como resíduos.

Entretanto, a reciclagem do alumínio economiza 95% do custo de energia para se produzir alumínio novo. Desde 2005, os moradores de Nova Iorque são obrigados a reciclar os aparelhos eletrônicos ou pagar uma multa de 100 dólares por peça. O mais curioso é que a quantidade de latas e garrafas de refrigerante dispensada num ano pelos norte-americanos é suficiente para se chegar e voltar da Lua 20 vezes.

O acúmulo de lixo tornou-se um dos maiores desafios da maior parte dos países do mundo, já que todos os anos são atirados ao mar seis milhões de toneladas de resíduos, na maioria plásticos, enquanto milhares de seres marinhos morrem ao ingerir sacos plásticos, em lugar de água viva.

Cuba tem como um dos pilares da sua economia o capital humano e possui uma experiência em gestão e aproveitamento de resíduos desde 1961. Consta que em 7 de novembro desse ano foi criado em território cubano a primeira indústria de reciclagem, com a finalidade de substituir as importações e obter receitas mediante a exportação de alguns desses desperdícios, que não podiam ser reutilizados no país.

Com a sua política no setor de resíduos, Cuba conseguiu recuperar matéria-prima que lhe permite poupar 15 milhões de dólares no OGE (Orçamento Geral do Estado). Na Ilha está em vigor uma lei (Lei nº 1288) que obriga as entidades estatais a examinar os desperdícios da produção e entregá-los à empresa encarregue pelo seu tratamento. No total, Cuba tem uma rede de 312 centros de compra de produtos recicláveis.

À procura do incremento do valor acrescentado dos resíduos recicláveis, em dezembro de 2012, o Governo cubano aprovou uma política para o incremento da reciclagem de matéria-prima. Com isso, o território gera todos os anos, dois milhões de toneladas de resíduos passíveis de reciclar, incluindo resíduos sólidos urbanos. Deste número, somente são recuperados à volta de 320 mil toneladas.

No ano passado, Cuba introduziu a venda de 182 toneladas de plástico triturado. Trinta toneladas de vidro moído, cinco mil metros de mangueira, 12 mil unidades de produtos plásticos e 15 mil dispositivos são fabricados com vidro reciclado. Em linhas gerais, a matéria-prima cubana é adquirida pelas grandes indústrias siderúrgicas, pela empresa Inox e por outros segmentos de cabos elétricos e telefônicos.

No entanto, muita criatividade e inovação cubana é derivada do bloqueio que o Governo norte-americano lhe impõe, com a indústria a produzir açúcar, bebidas alcoólicas, energia alternativa, contraplacados, ração animal e papel e o setor dos transportes a optar pela reutilização de pneumáticos, para melhorar o turismo e o transporte público.